30/05/2013

DOR

Não te zangues com a dor
Não a renegues
Não lhe tires o momento de tua redenção

A dor é o prenúncio de tua humanidade
Fugir é sofrer bem mais
É sentir-te incapaz

Convive com a dor se queres vencê-la
Ama-a
Olha-a
Degusta-a
Mastiga-a
Senti cada momento
Como se não houvesse nova dor

Engoli-la sem mastigar é que a torna indigesta
Ela não desce pela garganta
Entala
Engasga
Engasta
Chega a sufocar

O amargo da dor torna saboroso o doce momento de alegria
O azedo revela a sensibilidade que não se quer mostrar

Cada momento de dor molda a beleza da vida
Como o cinzel que corta o mármore
Fere-o
Tira-lhe uma parte
Mas faz dele uma beleza resistente e irresistível.

Fugir da dor é viver em nuvens
Suave
Atraente
Encantador
Mas frágil como a nuvem que se desfaz ao vento
Ao calor do sol

A dor não se vence
Não se disfarça
Não se evita
A dor se sente profundamente
Se chora
se curte
se permite

Doa-te à tua dor
E desta parceria inevitável
Surgirá, sorrateira
a grandeza de te compreenderes

e de sentir-te vivo.

24/05/2013

FLOR DE LIZ

Quanta graça pode haver em uma só mulher?
Sua presença ofuscou as estrelas do sertão.
Eles brilhavam no palco tocando em frente suas rimas
De caipira pira, pora...
E a cada aplauso, a cada canção,
A cada estrofe, a cada refrão,
Eu celebrava sua beleza,
Seu sorriso,
Sua presença.

A cada canção que terminava
Suas mãos delicadas aplaudiam
E eu, que já não conseguia deixar de te admirar,
Procurava em suas mãos algo que me dissesse que toda essa graça e beleza iluminavam outros olhos,
Encantavam outro pobre mortal,
Inspiravam outro coração.
Encontrei apenas um anel em cada mão,
Pobres joias que, por mais caras, eram apenas bijouterias
Comparadas a sua perfeição,
Que só pode ser obra divina.

Não sabia seu nome,
Mas já era minha musa,
Já tinha versos que existiam só pra você,
Só pra você.

Era domingo,
Eu sem pressa,
Passaria o dia ouvindo o som da viola
Que fala alto pro meu peito humano
Só pra te ver cantando,
E dançando,
E encantando.

Mas, o show acabou.
Eu te vi andando.
Tanta graça e perfeição...
Aumentei meus passos pra acalmar meu coração.
Eu, humilde fazedor de versos,
Nada diante daqueles grandes poetas que encantaram nossa manhã...
Sim, nossa, porque já me sentia tomado por você,
Prisioneiro de seus encantos.
Precisava apenas saber seu nome,
E você me disse sorrindo.

E então, como prometido,
humildemente,
nestes versos tão singelos,
Minha bela, minha flor-de-liz,
Quero te mostrar minha dedicação.

12/05/2013

MINHA MÃE SEMPRE

Pode pensar minha mãe que quando estou longe, longe ela está
Isso é engano de mãe e engano de mãe se perdoa sempre.
Posso estar onde for, comigo ela está.
Posso viajar pelo mundo, conhecer muitas belezas,
Mas o olhar de minha mãe brilha mais que qualquer joia de realeza.
Posso encontrar monumentos milenares, encantadores
Mas as mãos de minha mãe são a construção da mais divina beleza
Posso conhecer culturas, aprender diversas línguas
Mas a voz de minha mãe, apenas a chamar meu nome é superior a todas as palavras
É sagrada, como sagrado é seu colo, templo onde me sinto perto de Deus.
Mesmo que eu veja céus estrelados, mares azuis, campos verdejantes e floridos
Os cabelos brancos de minha mãe têm um encanto insuperável, pois são o branco da consciência em paz de quem fez tudo que podia e eu conheço cada um desses fios.
Mesmo que eu caminhe por lugares de meditação, por caminhos de redenção
Caminhar com minha mãe é a lição que meu coração conserva.
Posso cobrir-me de ouro, da mais pura seda, da lã de carneiros raros
Só os abraços de minha mãe me enriquecem e me fazem sentir coberto de raríssima beleza e aquecido contra o frio do mundo.
Mesmo que eu conheça o mundo, minha mãe...
O único lugar onde sei que serei absolutamente feliz, amado e forte é junto de ti, por isso, onde quer que eu esteja, te levo em meu coração, tu... minha mãe; sempre.

04/05/2013

DESVENDAR


Seus hieróglifos e mensagens
Suas verdades mais secretas
e mais nuas.

Seus mitos
Sua imensidão contraída
Como letra no muro

Seus secretos investimentos
Formas improváveis de você
Seus sagrados terrores
Medos conservados
Protetores

Seus êxtases
Amores e silêncios
Suas roupas

Seus aromas
Seus remorsos
Negações

Seus esquecimentos
Verdadeiros ou fingidos
Os espinhos que lhe ferem por dentro

Os defeitos que lhe sustentam
Seus mistérios
Que simplesmente são você

Seu amanhecer, entardecer
Anoitecer, a noite ser,
À noite ser.

E lhe ver por baixo dos infinitos véus
Que encantadoramente

Escondem você.

03/05/2013

A QUEM INTERESSAR

Que uns façam versos sobre a beleza da vida
Sobre a pureza da poesia
Sobre a luz do luar
E transformem seu canto
Em louvor da harmonia

Que uns caminhem pela estrada de ouro
Cercada de flores
Cores e perfumes
E das luzes do esplendor
Que é viver com alegria

Que uns cantem o paraíso
Que há de vir
A alma que não se vê
Os anjos que flutuam distantes

Que uns cantem a moral
A razão
A perfeição
O bem vencedor
O mal aniquilado
A civilização

Eu simplesmente não posso
Meu canto não tem a constância
De cores claras
De sons límpidos
De cantigas de ninar

Minh’alma pede mais
Meus sentidos são inquietos
Meu olhar vê o que não quer
Minha mão tateia a aspereza da vida

Minha poesia é de circunstância
sem medida
sem limite
sem definição
sem estilo.

02/05/2013

APRENDA

A Bertold Brecht

No dia de hoje, não se deixe convencer, não se deixe acomodar. Aprenda algo!
Algo simples, mas aprenda.
Sempre é tempo de não se perder tempo.
Aprenda o ABC, o 1,2,3...; dois pra lá, dois pra cá; uma nota, um acorde, uma palavra nova...
mas aprenda.
Não desanime! Comece!
É preciso aprender um pouco de tudo que há.
Quem aprende não se prende, nem se deixa prender.
Aprenda, você, nas ruas. Os que passam, os que permanecem.
Aprenda, você, nas prisões. Os que passam, os que voltam, os que não deveriam estar.
Aprenda nas cozinhas, nas salas; de estar, de espera, de reunião, de aula.
Aprenda na escola.
Aprenda com as crianças, com os jovens, com os adultos e com os velhos.
Aprenda com héteros, com homos, com bis.
Aprenda com mudos, surdos, cegos, aleijados.
Aprenda se sente frio, se sente fome, se não sabe o que é sentir, mesmo sentindo tanto.
Pegue um livro, aprenda algo.
Aprenda viajando, aprenda ficando.
Seja curioso, não acredite, não aceite, não concorde, não faça, sem ter aprendido.
Tudo lhe interessa. Aprenda!
Ao olhar para um motor, para a complexidade de uma flor, para o caminho das formigas na grama, aprenda algo sobre uma engrenagem, sobre um grão de pólen, sobre uma única formiga, se é isso que lhe encanta.
Pergunte!
Não se envergonhe por não saber, por querer saber.
Aprenda por que sim; aprenda por que não.
E escreva sua carta de alforria.

01/05/2013

HOMENS COMUNS


Sou um homem comum,
de carne e de lembranças,
de osso e de andanças.
A pé, de ônibus, de trem, de avião.
A vida sopra dentro de mim.
Vendavais me levam a firmar os pés no chão.
A paixão me leva a viver a vida simplesmente,
até que um dia ela cesse.

Sou feito de esquecimentos
E de desejos incompletos;
de rostos e de mãos,
de beijos,
abraços,
sorrisos
e solidão.

O guarda-sol colorido à beira-mar,
as alegrias de um passarinho,
o cheiro de mato,
a tarde morna e alaranjada,
o som das buzinas,
a campainha do metrô.

Nomes que não me lembram.
Sinais que um dia hei de ver perdidos na multidão,
pelos quais passarei sem um “bom dia”.
Tudo misturado na fornalha
que queima
e faz andar o trem até a estação derradeira,
onde vão desembarcar meus sonhos,
meus encantos
e minhas frustrações.

Poeta, acredito nas palavras.
Mas elas não movem engrenagens,
não erguem edifícios,
não constroem pontes,
não cavam túneis ou poços de petróleo.
Palavras não servem para nada.
A poesia é cada vez mais rara e não move o motor do progresso.

Gasto mais algumas palavras com você,
de homem para homem.
Caminho ao seu lado,
apoiado em você,
de braços dados
antes que o tempo passe
e outros mais morram por nós.

Homem comum, cruzo a avenida,
entro no caminhão de gado que me leva à estação.
Passo a catraca que me cobra pelo serviço “público”
entro no curral que controla minha insanidade.
Espero atrás da linha amarela
o trem do progresso que me prometeram e nunca chega.
A plataforma está cheia, mas nada é feito.
Somente a arena para o espetáculo e ficará pronta antes de qualquer futuro.

A sombra do lucro mancha a paisagem,
turva as águas dos rios,
tir de nós as estrelas,
o céu azul,
o ar puro,
o verde,
a naturalidade.

Somos simples,
comuns,
mas somos muitos
e unidos seremos comunidade de sonhos
e de flores para a primavera que há de vir.