Não te zangues
com a dor
Não a renegues
Não lhe tires o
momento de tua redenção
A dor é o
prenúncio de tua humanidade
Fugir é sofrer
bem mais
É sentir-te
incapaz
Convive com a dor
se queres vencê-la
Ama-a
Olha-a
Degusta-a
Mastiga-a
Senti cada
momento
Como se não
houvesse nova dor
Engoli-la sem
mastigar é que a torna indigesta
Ela não desce
pela garganta
Entala
Engasga
Engasta
Chega a sufocar
O amargo da dor
torna saboroso o doce momento de alegria
O azedo revela a
sensibilidade que não se quer mostrar
Cada momento de
dor molda a beleza da vida
Como o cinzel que
corta o mármore
Fere-o
Tira-lhe uma
parte
Mas faz dele uma
beleza resistente e irresistível.
Fugir da dor é
viver em nuvens
Suave
Atraente
Encantador
Mas frágil como a
nuvem que se desfaz ao vento
Ao calor do sol
A dor não se
vence
Não se disfarça
Não se evita
A dor se sente
profundamente
Se chora
se curte
se permite
Doa-te à tua dor
E desta parceria
inevitável
Surgirá,
sorrateira
a grandeza de te
compreenderes
e de sentir-te
vivo.