17/09/2015

DILMA E AS ELITES

Pessoas, li o texto que segue na seção de cartas da revista Carta Capital. Quero aproveitar a oportunidade para fazer uma análise e uma reflexão sobre ESCOLHA LEXICAL e os efeitos de sentido em relação à realidade a qual se refere a linguagem. Aí vai o texto.
"Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Lula tiveram de fazer concessões às elites brasileiras, a fim de garantir o mínimo de governabilidade. Sabedores da histórica estrutura político-social brasileira mantiveram-se alertas do quanto a elite sempre os quis longe do poder. Infelizmente, Dilma não assimilou muito bem essa lição ao tentar ganhar a compreensão de uma elite determinada a menosprezá-la. Tal ilusão inclui afagos amigos aos impérios midiáticos implacáveis em bombardeá-la, além de tentativas de abrandar o rancor dos segmentos sociais movidos a conservadorismo e ódio de classe. Dilma empenhou-se em dialogar com aqueles que desprezam o diálogo, enquanto pouco dialogou com aqueles que poderiam lhe garantir apoio.
Dilma buscou a ilusão de governar com a aprovação das elites, enquanto deixou passar boas oportunidades de governar apesar das elites."
S. Wessner. em Carta Capital. Ano XXI. nº867. 16 set. 2015.
Para fazer sua análise sobre a atuação do governo presidido pela presidenta (sim, a palavra está registrada no dicionário) Dilma Rousseff o autor usa, predominantemente, verbos no PRETÉRITO PERFEITO DO INDICATIVO - aquele tempo e modo em que os acontecimentos acontecerem em um dado momento do passado, de forma pontual - como por exemplo "empenhou-se", "dialogou", "buscou" e "deixou". A escolha por essas formas verbais demonstra que, para o autor, mesmo de forma inconsciente, o governo de Dilma cometeu erros de forma conclusiva, ou seja, erros que não podem mais ser consertados por ela, pois já foram concluídos no passado. Se quisesse passar a mensagem de que tais erros são cometidos no momento em que escreve, seria melhor usar verbos no presente do indicativo ou o gerúndio, por exemplo: "Dilma empenha-se..." ou "Dilma está se empenhando..."
A escolha lexical, aqui, reflete uma visão pessimista sobre o governo, uma vez que o mandato ainda tem três anos para terminar, mas o autor escreve como se já houvesse terminado. Dessa forma é que a escolha de formas de expressão refletem uma visão de mundo.
É por estas e outras que sempre digo: Não há comunicação sem intenção!

16/09/2015

MÁ TEMÁTICA


“A matemática na prática é sádica
reduziu meu povo a um zero à esquerda mais nada
uma equação complicada
onde a igualdade é desprezada”
Gog

Na escola da periferia...
Na aula de matemática...
Ninguém entende nada...

Problemas? Muitos!
Nenhum resolvido...
Todos multiplicados...

Dividir?
Não!
No mundo é cada um por si.

Igualdade?
Só na miséria
E na falta de assistência...

O sinal de menos lembra o moleque que não veio pra aula
e nem virá...

O sinal de mais é apenas uma cruz...

mais um jovem pobre e preto virou estatística do sistema.

02/09/2015

ESTADO GRAVE


Paciente: Sociedade
Estado: grave, gravíssimo
Risco iminente de falência múltipla de órgãos.

Estamos em coma induzido.

Nossos olhos apenas olham,
mas não veem nada.

Nossos lábios continuam fechados.
Abrem-se apenas para engolir,
sem pensar,
o alimento que nos dão sem sabermos bem o que é.
Dizem que é bom,
é fundamental,
é vital.

Nossas mãos não fazem nada.
Nossos punhos não se cerram.
Não se erguem.
Na palma da mão, nenhum futuro a ser lido.

Estamos em coma induzido
apenas o coração batendo,
sem resposta aos estímulos,
paralisado,
apenas as funções essenciais,
sem essência.

Os dias passam,
o sangue corre devagar,
não esquenta.

A anestesia geral nos mantém em estado letárgico.
Dizem que é essencial para nos proteger.
E nós, pacientes,
apenas esperamos que nos apliquem a eutanásia.
Mas não é permitido,
somos fundamentais...
Sem nosso estado gravíssimo,
a imensa fábrica de placebo enfraquece,
sem nossa letargia,
os anestésicos oferecidos todos os dias não fazem sentido.


Sem nós, não há essa tal sociedade.

26/08/2015

HOMENS DE BEM

400 a.C.
Sócrates pregava que as pessoas deviam pensar e defendia a simplicidade.
Os homens de bem,
Doutores da lei,
Religiosos,
Defensores da sociedade,
Prenderam Sócrates e o acusaram de enganar a população e de subverter a juventude.
Sócrates foi julgado,
Condenado,
Morto.
Pelos homens de bem.

33 d.C.
Jesus, filho de José pregava que as pessoas deveriam se amar e a simplicidade.
Os homens de bem,
doutores da lei,
religiosos,
defensores da sociedade,
prenderam Jesus e o acusaram de enganar a população e subverter a multidão.
Jesus foi julgado,
Condenado,
Morto.
Pelos homens de bem.

1695
Zumbi pregava a resistência à escravidão de negras, negros e brancas e brancos pobres.
Os homens de bem,
Doutores da lei,
Religiosos,
Defensores da sociedade,
Prenderam-no,
Foi morto.
Pelos homens de bem.

1897
Antônio Conselheiro pregava a igualdade entre os homens e a defesa dos pobres.
Os homens de bem
Doutores da lei,
Religiosos,
Defensores da sociedade,
Perseguiram Conselheiro e o acusaram de perturbar a consciência e desafiar autoridade da Igreja.
Conselheiro foi atacado,
Morto.
Pelos homens de bem.

1964-1985
Políticos, artistas, intelectuais, estudantes, trabalhadores lutavam pela liberdade e pela democracia.
Os homens de bem,
Doutores da lei,
Religiosos,
Defensores da sociedade,
Acusaram-nos de perturbar a ordem e ameaçar a democracia.
Foram atacados,
Presos,
Torturados,
Mortos,
Pelos homens de bem.

1967
Ernesto Che Guevara lutou pela libertação de Cuba contra a ditadura, pela libertação da América Latina contra o imperialismo.
Os homens de bem,
doutores da lei,
religiosos,
defensores da sociedade,
acusaram-no de ser violento, de ser assassino, de perturbar a ordem, de corromper a juventude.
Perseguiram-no,
Foi condenado,
Foi morto.
Pelos homens de bem.

Hoje e sempre
Companheiros e companheiras, lutemos pela liberdade, pela justiça e pela igualdade, pelo fim da exploração de quem trabalha.
Os homens de bem,
Doutores da lei,
Religiosos,
Vão nos perseguir,
Nos acusar de perturbar a ordem, de corromper a juventude, de sermos contra a moral e os bons costumes.
Vão nos perseguir,
Seremos presos,
Condenados,
Mortos,
Pelos homens de bem.




André Valente
S. Paulo, 25 de agosto de 2015




23/08/2015

QUEM É QUE MANDA...

Ai, a elite...
Sempre querendo mostrar quem é que manda...
Num momento é impeachment...
É Marinho, é Setúbal, é Trabuco, é Mesquita...
De repente, de uma hora para outra tudo muda.
Todo mundo acha um absurdo isso... e a democracia?
Não há motivos...
Estão indo longe demais...

E o povo acreditando que eles ficaram bonzinhos.

Mais um acordo para mostrar que são eles que mandam...

Tão Brasil!

09/08/2015

VIDA SOCIAL

Curtir companhias de pessoas...
Comentar coisas face a face...

Compartilhar momentos reais...

26/07/2015

RESISTIR É PRECISO!

Acho que já consigo escrever algo. Acho que preciso escrever algo.
Este foi um final de semana dilacerante, doloroso, inacreditável. Enterrei uma amiga que decidiu pôr fim a sua vida. E por quê ela fez isso? Não sabemos exatamente. Ela não deixou um bilhete; nada. Apenas e simbolicamente enforcou-se, talvez para sufocar gritos que a angustiavam.
Ela tinha apenas 27 anos completos há apenas 25 dias. Era dona de uma invejável inteligência, de uma invejável beleza, composta de lindos olhos azuis, cabelos cacheadinhos, um rosto meigo e um corpo admirável; de uma invejável capacidade de realização... Mas, incrivelmente, não acreditava em nada disso. Dizia que nada fazia direito, sentia-se incapaz, gorda, não-produtiva.
Ela passava por um momento difícil em que um empreendimento não dava os resultados esperados e ela não conseguia recuperar o investimento. E sentia-se cobrada por isso, por pessoas que tinham tudo para dar apoio, incentivo, afeto. Gente que, agora, está preocupada com o que restou...
No buraco que sua partida deixou, algumas questões ficaram mais fortes: por que tantas vezes vejo gente rindo, cochichando, fazendo caretas quando digo que dinheiro e bens materiais não trazem felicidade? Entre tantos motivos, ela decidiu fugir do fracasso. Ela desistiu de lutar contra um mundo capitalista, opressor, que desengana, que frustra, que julga e que pouco ou quase nada faz para ajudar. Ela desistiu de tentar ter a beleza que acreditava ser a ideal, por que disseram que ela tinha que ser magra, alta, peituda, bunduda... Ela desistiu de ser inteligente em um mundo que valoriza a esperteza de quem "pode mais". Ela era historiadora, mas este é um mundo para administradores, engenheiros, advogados e não para historiadores, pois História não dá dinheiro, não dá status e, assim, ela se sentia nao-realizada. Ela queria ter seu restaurante, mas diziam que ela tinha que ser doutora, que não estudou história para ter um restaurante, mesmo sem pensar que ela, uma mulher, tentava ser dona de um empreendimento onde de cinco pessoas, com ela, quatro eram mulheres e quatro eram negras, num mundo de brancos e homens que dominam. Ela desistiu, pois se sentia fracassada por não conseguir arrumar emprego, pois neste mundo, se não se está no "mercado de trabalho" não se é ninguém.
Nossa amizade começou há três meses, durou pouco, mas sua partida está doendo muito.
Mas, que esta dor sirva para continuar trabalhando, estudando e lutando por um mundo diferente, livre desse sistema que oprime e derruba a auto-estima de quem não pode com ele, para que cada vez menos de nós tenhamos que ver pessoas desistindo, pois resistir é preciso!

23/07/2015

ORGULHO E MISÉRIA

Voltava para casa de mais um dia de trabalho.
A aula sobre Romantismo me fez falar sobre Victor Hugo e sua literatura engajada.
Ele, autor, de Os miseráveis.
Falei de como a literatura romântica, em seus ideias, tira o homem da realidade, colocando-o na fantasia, no mundo da imaginação.
Caminhava para a estação da Lapa, para pegar meu trem, quando um miserável homem que vive na rua começou a gritar enquanto agitava os braços: Eeeeeuuuuu sou brasileirooooooooo com muito orgulho, com muito amooooor...
As pessoas passavam e olhavam com olhar de estranheza. Outras, nem olhavam. E eu, tirado do mundo da fantasia e da literatura pensava no Brasil, que se orgulha de Victor Hugo, mas que não reconhece os miseráveis em suas ruas, não ouve o grito desses brasileiros e que não devolve com o mesmo orgulho, esse canto, que talvez seja meramente um canto, enquanto o homem com os braços agitados é real e sua situação não é motivo de orgulho algum.

André Valente

S. Paulo, 1 de junho de 2015

27/06/2015

Não me especifiquem
Não me qualifiquem
Não me rotulem
Não me ordenem.


Deixem-me apenas ser!

17/06/2015

RACISTA EU?

É, a coisa tá preta.
Nego diz que existe racismo...
Que isso? No Brasil? Imagina, isso aqui é uma mistura...
Eu, por exemplo, sou branco, neto de italianos, mas tenho muitos amigos negros, tudo gente boa, estudada, culta honesta. Não sou racista! Eu e meus irmãos somos casados com mulheres de cor.

Sou totalmente contra o racismo. Ninguém pode denegrir uma pessoa por causa da cor escura, do cabelo ruim, dos traços rústicos. Cada um é como é.
Eu não admito racismo perto de mim.

Que foi? Não tá gostando da conversa? E quem é você pra querer me dizer o que é certo? Você não manda em mim não! Eu não sou suas nega!

Eu não consigo entender como alguém pode ser racista no Brasil! Poxa, tem coisa mais linda do que as mulatas sambando no carnaval? Aquele corpo! Aquele rebolado! Aquela cor do pecado! E o gingado que eles têm? Eu morro de inveja! Mas é inveja branca hein!

Sabe, aquela beleza exótica é demais. Quem é que não gosta de uma morena ou de um moreno tipo exportação? Coisa mais linda!

Além disso, quem é que pode dizer que é puro nesse país? Todo mundo tem um pezinho na senzala!

Mas, sabe o que eu acho? É que os próprios pretos são preconceituosos! É só olhar na rua! O negão tá sempre acompanhado de uma loira! Eles mesmos não valorizam a raça deles. E depois reclamam.

E tem outra coisa, tem muito negro que pratica racismo inverso. Não pode ver um branco que já começa a xingar.

E aquele feriado da consciência negra? Precisava daquilo? Já não tem o 13 de maio? E a consciência branca, quando é o dia?

O quê? Oi? Pois não!? Você quer falar? Desculpe, mas não é por que você é negro que vai desrespeitar minha opinião! Eu não quero discutir com você! Poxa, estou aqui defendendo a raça de vocês...

Bom, acho melhor eu parar. Tenho que ir! Está tarde e amanhã é dia de branco!

André Valente
S. Paulo, 17 de junho de 2015.



(Atenção, isto é uma crônica. Mas qualquer semelhança com a realidade dos fatos, não é mera coincidência.)

10/06/2015

POESIA

Poesia é vida pulsando no secreto de cada um.
No não ser das coisas insabidas.
Na insatisfação do entendimento.
Na beleza das coisas invisíveis.
Na fluidez do que parecia sólido.

Poesia está onde os pés não conseguem pisar.
Onde os dedos não podem tocar.
Nos sons que os ouvidos não sabem que ouvem.

Em tudo que só pode ser descrito por termos desconcertados.
Naquilo que só existe na alquimia de sons, formas e sentidos incompatíveis.

Poesia é a decomposição das palavras exatas.
É o carvão da queima das razões.
É a borra que resta após o brinde ao pensamento.

Poesia é loucura
é devaneio
é o que não era e talvez não seja assim tão simples.

QUE ME LEVE A VIDA



“Tem dias que a gente se sente, um pouco talvez menos gente”, já dizia Raul Seixas...
É mas a gente vai levando...
Paulada na cabeça... pé na bunda... chute no saco...rasteira... e vai sendo levado pela vida... como dizia Cazuza... Vida louca... vida... vida breve... já que eu não posso te levar quero que você me leve...

Dizem às vezes que temos que ter o controle de tudo... mas como ter o controle de tudo se não sabemos de tudo e se tudo que sabemos às vezes é nada? E se não temos controle nem de nós mesmos... e jamais teremos, pois quem tem controle é máquina... gente não!

Amanheço às vezes com uma vontade enorme de dormir... de ser louco... de não ter que saber quem eu sou... onde estou... por que estou aqui... e tenho também, às vezes, a sensação de ser alguém em algum lugar, com alguma coisa pra fazer...

Mas é mais legal não saber o que se faz, porque assim se faz mais tranqüilo...

Geralmente, quem sabe sempre o que faz é muito chato; faz tudo quadrado porque o que sabe é lei. "São tantos anos de experiência". Frase mentirosa, vinda da consciência entorpecida de quem apenas repetiu em tantos anos o aprendizado de apenas um.

“Quero antes o lirismo dos loucos.” Salve, mestre Bandeira.

“E está fundado o desvairismo...” com o perdão do plágio, Mário, mas é isso...

Que a vida me leve de leve!

03/06/2015

ORGULHO E MISÉRIA

Voltava para casa de mais um dia de trabalho.
A aula sobre Romantismo me fez falar sobre Victor Hugo e sua literatura engajada.
Ele, autor de Os miseráveis.
Falei de como a literatura romântica, em seus ideais, tira o homem da realidade, colocando-o na fantasia, no mundo da imaginação.
Caminhava para a estação para pegar meu trem, quando um miserável homem que vive na rua começou a gritar enquanto agitava os braços: Eeeeeuuuuu sou brasileeeirooooooooo com muito orguuulho, com muito amooooor...
As pessoas passavam e olhavam com olhar de estranheza. Outras, nem olhavam. E eu, tirado do mundo da fantasia e da literatura pensava no Brasil que não ouve o grito desses brasileiros e que não devolve com o mesmo orgulho, esse canto, que talvez seja meramente um canto, enquanto o homem com os braços agitados é real e sua situação não é motivo de orgulho algum.

André Valente

S. Paulo, 1 de junho de 2015

02/06/2015

A DROGA DO CONHECIMENTO

Ser professor, em um mundo em que a ignorância, a truculência, a violência ainda predominam e são confundidas com simplicidade, firmeza e a tal “pegada forte”, é praticamente um ato subversivo, criminoso. Ensinar a pensar, é como oferecer uma droga perigosíssima.
Professores, somos traficantes procurando, de toda forma, aliciar novos jovens. Oferecemos pequenas porções, no começo, só pra viciar. É um poema recitado em uma primeira aula, uma piada com o conteúdo de uma aula, uma musiquinha, uma dança, uma curiosidade, o desvendar de pequenos segredos das ciências, tudo para que o jovem queira mais desse barato, dessa aventura, dessa viagem que é cheirar um pouco de pó de conhecimento, fumar um baseado de equações, ligações químicas, letras, filosofia, sociologia; injetar um pouco de física veia adentro, engolir uma balinha de geometria, dos acontecimentos históricos que nos fazem viajar no tempo.
Depois de consumir essas drogas, não se espante se diante de você começarem a aparecer figuras geométricas escondidas nas formas das coisas que antes eram só coisas. Não estranhe se tiver alucinações de que a sociedade de hoje é muito parecida com aquela estudada nas aulas de história ou se notar que está tendo alterações de pensamento e até de forma de se expressar, de olhar, de se vestir, de consumir. Esses são indícios do domínio da droga-conhecimento em você.
Se as antigas certezas e verdades começarem a não ter mais sentido, aí ferrou, você está em estado grave de alucinação, cuidado, não deixe que percebam, senão podem te internar e lá, onde vão te levar, dão um tratamento brutal com várias sessões de programas de auditório dominicais, músicas vazias de conteúdo que te ensinam a tratar mulher como coisa que você pega e tain tain tain... Há também, terapia corporal, com dancinhas ridículas ao som de músicas que não dizem nada, nem tem qualidade sonora. Te entregam uns manuais de como viver em sociedade e dirão para que você veja tudo como em nossa época isto é... e dizem que se você ler aquelas revistas e jornais, saberá a verdade de tudo. Então, cuidado, ser viciado em conhecimento, é perigoso, pode te levar a não saber o que é a realidade que te ensinaram a ver.

Enfim, qualquer dia desses podemos ser presos por estarmos pondo a perder todo o investimento em tornar o mundo mais alegre e satisfeito com tão pouco que é oferecido através da TV, do rádio, dos jornais, da internet e que brilha aos olhos, mas torna o mundo profunda e tristemente careta.

21/05/2015

Ei, senhorita!

Aí o cara começa a falar: "Oi, senhorita. Como estás?"
Meu filho, essa corte já não cola mais há uns quinhentos anos pelo menos.
Algumas e alguns dirão: "Ah, mas é romântico, é elegante, é cavalheiro..."
Não!
A verdade é que essa corte sempre foi usada para esconder as verdadeiras intenções do "trovador": sexo.
Será que as mulheres, pelo menos as ditas emancipadas, do século XXI continuam acreditando/querendo ser iludidas assim?

Postei o texto acima, no Facebook, esses dias e ele acabou gerando uma pequena discussão.
Para evitar mal-entendidos, decidi explicar aqui, o que está por trás das minhas palavras. A história é um pouco longa, mas, necessária. Lá vamos nós e vamos por parte.
Primeiramente, é preciso ficar claro que o texto foi motivado por dois casos reais envolvendo uma mulher e dois caras que usaram exatamente essas expressões e, no final das contas, queriam apenas sexo.
Sei que alguns dirão: “Mas nem sempre é assim.” Eu sei, mas convido a terminar a leitura e depois pensar nesse comportamento.
Começando pelo pronome de tratamento “senhorita”, que é, tradicionalmente usado para se dirigir a mulheres solteiras. Atualmente, essa tradição não é seguida à risca, então, o tratamento passou a ser usado para moças ou mulheres consideradas jovens.
Pois é, essa forma de tratamento traz implícita uma visão de mundo patriarcal, machista. Por quê? Por que segundo a concepção dela, a mulher passa a ser “senhora” quando casa e, então, a mulher passa a ser a senhora fulano de tal (sobrenome do marido), o que significa que a mulher só passa a ser tratada como “senhora” e com o respeito que os defensores dessas expressões alegam ter, porque é casada ou seja, em função do marido, do homem. Se não se casou, continua senhorita que é, segundo a morfologia da palavra, o diminutivo de “senhora”. Isso mesmo, DIMINUTIVO. Certo, e qual é o problema? O problema é que não existe essa concepção quando se trata do homem. O homem, desde criança, pode ser tratado por “senhor”. Além disso, a própria palavra é problemática, porque traz consigo todo o autoritarismo da relação de senhorio, relação, geralmente, associada à escravidão ou à servidão. Sendo assim, o homem nasce para ser senhor, enquanto a mulher só o será quando pertencer a um homem e mesmo assim, deve obediência ao seu senhor, ideia defendida e difundida desde a antiguidade até os dias atuais e por quem? Por nós, homens, religiosos, maridos, intelectuais, governantes, enfim, dominadores.
A segunda parte da saudação dos candidatos a Dom Juan usa a frase “Como estás?”,  que corresponde à segunda pessoa do singular, ou seja, ao pronome “tu” e ao verbo conjugado. Essa forma verbal, pelo menos em boa parte do Brasil, não se usa mais, não no cotidiano. É uma forma que remete ao passado e que, hoje, por estar registrada em textos literários e por conta da visão de que os literatos são os representantes do melhor português – o que não é mais aceito pelos estudiosos contemporâneos – fazem parecer que, quem usa tem um bom português, e como em nossa cultura, isso é sinônimo de ser boa pessoa, quem usa essa forma está querendo passar a imagem do bom moço ou boa moça.
Juntando tudo, chamar uma mulher de senhorita e usar uma linguagem formal, considerada culta, erudita faz a pessoa que usa tais expressões parecer – pelo menos aos olhos de quem acredita nisso – respeitosa e respeitadora, decente, moralmente correta. No momento de dar ideia ou fazer a corte, como usei no post, isso quer passar a ideia de que se trata de alguém respeitoso.
E qual é o problema? Isso não é cavalheirismo? Isso não é romantismo? Isso não é respeito?
Eu disse na postagem que Não! E sustento, não, não e não. Por quê?
Cavalheirismo é um conceito medieval. Era o nome dado ao conjunto de comportamentos que regia a atividade daquele nobre que lutava em defesa de seu reino, de sua fé e em nome de um senhor. Romantismo é um conceito que se relaciona aos idealismos da burguesia dominante a partir da Revolução Francesa, no final do século XVIII. Como está diretamente ligado aos ideais, ser romântico, é se comportar, escrever e falar como se fôssemos pessoas ideais. Em outras palavras, não é a nossa verdade, mas a verdade de ideais que nos são transmitidos como verdades. Nessa visão ideal de mundo, o príncipe tem sempre uma princesa, o cavalheiro tem sempre uma dama e, necessariamente, ser uma princesa ou uma dama, é se comportar como mandam esses idealismos que correspondem à visão burguesa-capitalista de mundo, que engloba a visão religiosa. E aí é que entram as mulheres emancipadas do século XXI.
Desde a década de 1950, a mulher vem se emancipando das imposições de nós, homens, que, durante milênios “dominamos” o mundo e as forçamos a ficar quietinhas, sendo boas moças, virgens e puras, esperando por seu “príncipe” que viria e lhe daria um lar e uma linda família com filhos e uma casa para cuidar.
Sendo assim, comportar-se como se o respeito estivesse em fingir uma forma de expressão que não é natural e espontânea é muito mais desrespeitoso do que simplesmente tratá-las com naturalidade e, acima de tudo, sinceridade; considerando que ela tem todo o direito de querer apenas ter uma boa transa, de querer apenas conversar e até de querer encontrar alguém para se casar e constituir um lar e uma família.
Então, acabou o romantismo? Acabou o respeito? Acabou o carinho?
Novamente, a resposta é Não!

Não se com “romantismo” estiver se falando de fantasiar, de sonhar, de querer estar sempre com alguém, isso é natural do ser humano, mas não pode ser imposto. Agora, se isso significar que estamos falando de buscar a pessoa ideal, a relação ideal, o mundo ideal, está na hora de acabar, porque, quem pode dizer o que é O Ideal? Esses ideais precisam mudar, pois foram construídos baseados em uma ideia de dominação de uma classe por outra e, principalmente, de nós, homens, machos, senhores, sobre as mulheres, as fêmeas, o dito sexo frágil. E a questão é que as mulheres de hoje, não querem mais que ninguém diga para elas como têm que se comportar. Na verdade, nem posso dizer o que querem as mulheres, simplesmente, por que sou homem, mas posso dizer que não quero mais agir como um ator que está encenando uma peça e fingindo ser alguém que não sou, falando como não falo, em nome de uma falsa ideia de respeito, só para conquistar alguém. Prefiro conversar e procurar entender como aquela pessoa que está diante de mim pensa, o que ela quer, o que ela deseja, quais são seus sonhos, suas fantasias, seus gostos e ver se gosto dela. E, da mesma forma como espero ser sincero na maioria das vezes, quero receber isso de volta.

20/05/2015

FRUTO PROIBIDO

O espírito de Deus pairava sobre as águas.
E Deus disse “Faça-se”
E tudo se fez.
Fez-se a terra.
Fizeram-se as plantas.
Fizeram-se os animais.
Fez-se o homem
Que devia reinar sobre todos os minerais
Os vegetais
Os animais.
Fez-se a mulher.
Que deveria ser submissa ao homem.
Fez-se o patriarcado.
E depois, Deus disse: “Da árvore do saber, não comerás. É pecado”
Fez-se o monopólio do conhecimento!
A serpente tentou.
A mulher comeu.
O homem comeu.
A culpa caiu na mulher.
Fez-se o machismo.
Deus disse: “Homem, terás que trabalhar para ter o teu sustento.”
Fez-se o proletariado
E tudo então, passou a ser pecado.
Podes ver, podes cheirar, podes ouvir
Mas não podes ter.
É tudo pecado!
E fez-se o capitalismo.

André Valente

S. Paulo, 20 de maio de 2015