Aí o cara começa a falar: "Oi,
senhorita. Como estás?"
Meu
filho, essa corte já não cola mais há uns quinhentos anos pelo menos.
Algumas e alguns dirão: "Ah, mas é romântico, é elegante, é
cavalheiro..."
Não!
A verdade é que essa corte sempre foi usada para esconder as verdadeiras
intenções do "trovador": sexo.
Será que as mulheres, pelo menos as ditas emancipadas, do século XXI continuam
acreditando/querendo ser iludidas assim?
Postei o texto acima, no Facebook, esses dias e ele acabou
gerando uma pequena discussão.
Para evitar mal-entendidos, decidi explicar aqui, o que está por trás das minhas palavras. A história é um
pouco longa, mas, necessária. Lá vamos nós e vamos por parte.
Primeiramente, é preciso ficar claro que o texto foi
motivado por dois casos reais envolvendo uma mulher e dois caras que usaram
exatamente essas expressões e, no final das contas, queriam apenas sexo.
Sei que alguns dirão: “Mas nem sempre é assim.” Eu sei, mas
convido a terminar a leitura e depois pensar nesse comportamento.
Começando pelo pronome de tratamento “senhorita”, que é,
tradicionalmente usado para se dirigir a mulheres solteiras. Atualmente, essa
tradição não é seguida à risca, então, o tratamento passou a ser usado para
moças ou mulheres consideradas jovens.
Pois é, essa forma de tratamento traz implícita uma visão de
mundo patriarcal, machista. Por quê? Por que segundo a concepção dela, a mulher
passa a ser “senhora” quando casa e, então, a mulher passa a ser a senhora
fulano de tal (sobrenome do marido), o que significa que a mulher só passa a
ser tratada como “senhora” e com o respeito que os defensores dessas expressões
alegam ter, porque é casada ou seja, em função do marido, do homem. Se não se
casou, continua senhorita que é, segundo a morfologia da palavra, o diminutivo
de “senhora”. Isso mesmo, DIMINUTIVO. Certo, e qual é o problema? O problema é
que não existe essa concepção quando se trata do homem. O homem, desde criança,
pode ser tratado por “senhor”. Além disso, a própria palavra é problemática,
porque traz consigo todo o autoritarismo da relação de senhorio, relação,
geralmente, associada à escravidão ou à servidão. Sendo assim, o homem nasce
para ser senhor, enquanto a mulher só o será quando pertencer a um homem e
mesmo assim, deve obediência ao seu senhor, ideia defendida e difundida desde a
antiguidade até os dias atuais e por quem? Por nós, homens, religiosos,
maridos, intelectuais, governantes, enfim, dominadores.
A segunda parte da saudação dos candidatos a Dom Juan usa a
frase “Como estás?”, que corresponde à
segunda pessoa do singular, ou seja, ao pronome “tu” e ao verbo conjugado. Essa
forma verbal, pelo menos em boa parte do Brasil, não se usa mais, não no
cotidiano. É uma forma que remete ao passado e que, hoje, por estar registrada
em textos literários e por conta da visão de que os literatos são os representantes
do melhor português – o que não é mais aceito pelos estudiosos contemporâneos –
fazem parecer que, quem usa tem um bom português, e como em nossa cultura, isso
é sinônimo de ser boa pessoa, quem usa essa forma está querendo passar a imagem
do bom moço ou boa moça.
Juntando tudo, chamar uma mulher de senhorita e usar uma
linguagem formal, considerada culta, erudita faz a pessoa que usa tais
expressões parecer – pelo menos aos olhos de quem acredita nisso – respeitosa e
respeitadora, decente, moralmente correta. No momento de dar ideia ou fazer a
corte, como usei no post, isso quer passar a ideia de que se trata de alguém
respeitoso.
E qual é o problema? Isso não é cavalheirismo? Isso não é
romantismo? Isso não é respeito?
Eu disse na postagem que Não! E sustento, não, não e não.
Por quê?
Cavalheirismo é um conceito medieval. Era o nome dado ao
conjunto de comportamentos que regia a atividade daquele nobre que lutava em
defesa de seu reino, de sua fé e em nome de um senhor. Romantismo é um conceito
que se relaciona aos idealismos da burguesia dominante a partir da Revolução
Francesa, no final do século XVIII. Como está diretamente ligado aos ideais,
ser romântico, é se comportar, escrever e falar como se fôssemos pessoas
ideais. Em outras palavras, não é a nossa verdade, mas a verdade de ideais que
nos são transmitidos como verdades. Nessa visão ideal de mundo, o príncipe tem
sempre uma princesa, o cavalheiro tem sempre uma dama e, necessariamente, ser
uma princesa ou uma dama, é se comportar como mandam esses idealismos que
correspondem à visão burguesa-capitalista de mundo, que engloba a visão
religiosa. E aí é que entram as mulheres emancipadas do século XXI.
Desde a década de 1950, a mulher vem se emancipando das imposições
de nós, homens, que, durante milênios “dominamos” o mundo e as forçamos a ficar
quietinhas, sendo boas moças, virgens e puras, esperando por seu “príncipe” que
viria e lhe daria um lar e uma linda família com filhos e uma casa para cuidar.
Sendo assim, comportar-se como se o respeito estivesse em
fingir uma forma de expressão que não é natural e espontânea é muito mais
desrespeitoso do que simplesmente tratá-las com naturalidade e, acima de tudo,
sinceridade; considerando que ela tem todo o direito de querer apenas ter uma
boa transa, de querer apenas conversar e até de querer encontrar alguém para se
casar e constituir um lar e uma família.
Então, acabou o romantismo? Acabou o respeito? Acabou o
carinho?
Novamente, a resposta é Não!
Não se com “romantismo” estiver se falando de fantasiar, de
sonhar, de querer estar sempre com alguém, isso é natural do ser humano, mas
não pode ser imposto. Agora, se isso significar que estamos falando de buscar a
pessoa ideal, a relação ideal, o mundo ideal, está na hora de acabar, porque,
quem pode dizer o que é O Ideal? Esses ideais precisam mudar, pois foram
construídos baseados em uma ideia de dominação de uma classe por outra e,
principalmente, de nós, homens, machos, senhores, sobre as mulheres, as fêmeas,
o dito sexo frágil. E a questão é que as mulheres de hoje, não querem mais que
ninguém diga para elas como têm que se comportar. Na verdade, nem posso dizer o
que querem as mulheres, simplesmente, por que sou homem, mas posso dizer que
não quero mais agir como um ator que está encenando uma peça e fingindo ser
alguém que não sou, falando como não falo, em nome de uma falsa ideia de
respeito, só para conquistar alguém. Prefiro conversar e procurar entender como
aquela pessoa que está diante de mim pensa, o que ela quer, o que ela deseja,
quais são seus sonhos, suas fantasias, seus gostos e ver se gosto dela. E, da
mesma forma como espero ser sincero na maioria das vezes, quero receber isso de
volta.