21/05/2015

Ei, senhorita!

Aí o cara começa a falar: "Oi, senhorita. Como estás?"
Meu filho, essa corte já não cola mais há uns quinhentos anos pelo menos.
Algumas e alguns dirão: "Ah, mas é romântico, é elegante, é cavalheiro..."
Não!
A verdade é que essa corte sempre foi usada para esconder as verdadeiras intenções do "trovador": sexo.
Será que as mulheres, pelo menos as ditas emancipadas, do século XXI continuam acreditando/querendo ser iludidas assim?

Postei o texto acima, no Facebook, esses dias e ele acabou gerando uma pequena discussão.
Para evitar mal-entendidos, decidi explicar aqui, o que está por trás das minhas palavras. A história é um pouco longa, mas, necessária. Lá vamos nós e vamos por parte.
Primeiramente, é preciso ficar claro que o texto foi motivado por dois casos reais envolvendo uma mulher e dois caras que usaram exatamente essas expressões e, no final das contas, queriam apenas sexo.
Sei que alguns dirão: “Mas nem sempre é assim.” Eu sei, mas convido a terminar a leitura e depois pensar nesse comportamento.
Começando pelo pronome de tratamento “senhorita”, que é, tradicionalmente usado para se dirigir a mulheres solteiras. Atualmente, essa tradição não é seguida à risca, então, o tratamento passou a ser usado para moças ou mulheres consideradas jovens.
Pois é, essa forma de tratamento traz implícita uma visão de mundo patriarcal, machista. Por quê? Por que segundo a concepção dela, a mulher passa a ser “senhora” quando casa e, então, a mulher passa a ser a senhora fulano de tal (sobrenome do marido), o que significa que a mulher só passa a ser tratada como “senhora” e com o respeito que os defensores dessas expressões alegam ter, porque é casada ou seja, em função do marido, do homem. Se não se casou, continua senhorita que é, segundo a morfologia da palavra, o diminutivo de “senhora”. Isso mesmo, DIMINUTIVO. Certo, e qual é o problema? O problema é que não existe essa concepção quando se trata do homem. O homem, desde criança, pode ser tratado por “senhor”. Além disso, a própria palavra é problemática, porque traz consigo todo o autoritarismo da relação de senhorio, relação, geralmente, associada à escravidão ou à servidão. Sendo assim, o homem nasce para ser senhor, enquanto a mulher só o será quando pertencer a um homem e mesmo assim, deve obediência ao seu senhor, ideia defendida e difundida desde a antiguidade até os dias atuais e por quem? Por nós, homens, religiosos, maridos, intelectuais, governantes, enfim, dominadores.
A segunda parte da saudação dos candidatos a Dom Juan usa a frase “Como estás?”,  que corresponde à segunda pessoa do singular, ou seja, ao pronome “tu” e ao verbo conjugado. Essa forma verbal, pelo menos em boa parte do Brasil, não se usa mais, não no cotidiano. É uma forma que remete ao passado e que, hoje, por estar registrada em textos literários e por conta da visão de que os literatos são os representantes do melhor português – o que não é mais aceito pelos estudiosos contemporâneos – fazem parecer que, quem usa tem um bom português, e como em nossa cultura, isso é sinônimo de ser boa pessoa, quem usa essa forma está querendo passar a imagem do bom moço ou boa moça.
Juntando tudo, chamar uma mulher de senhorita e usar uma linguagem formal, considerada culta, erudita faz a pessoa que usa tais expressões parecer – pelo menos aos olhos de quem acredita nisso – respeitosa e respeitadora, decente, moralmente correta. No momento de dar ideia ou fazer a corte, como usei no post, isso quer passar a ideia de que se trata de alguém respeitoso.
E qual é o problema? Isso não é cavalheirismo? Isso não é romantismo? Isso não é respeito?
Eu disse na postagem que Não! E sustento, não, não e não. Por quê?
Cavalheirismo é um conceito medieval. Era o nome dado ao conjunto de comportamentos que regia a atividade daquele nobre que lutava em defesa de seu reino, de sua fé e em nome de um senhor. Romantismo é um conceito que se relaciona aos idealismos da burguesia dominante a partir da Revolução Francesa, no final do século XVIII. Como está diretamente ligado aos ideais, ser romântico, é se comportar, escrever e falar como se fôssemos pessoas ideais. Em outras palavras, não é a nossa verdade, mas a verdade de ideais que nos são transmitidos como verdades. Nessa visão ideal de mundo, o príncipe tem sempre uma princesa, o cavalheiro tem sempre uma dama e, necessariamente, ser uma princesa ou uma dama, é se comportar como mandam esses idealismos que correspondem à visão burguesa-capitalista de mundo, que engloba a visão religiosa. E aí é que entram as mulheres emancipadas do século XXI.
Desde a década de 1950, a mulher vem se emancipando das imposições de nós, homens, que, durante milênios “dominamos” o mundo e as forçamos a ficar quietinhas, sendo boas moças, virgens e puras, esperando por seu “príncipe” que viria e lhe daria um lar e uma linda família com filhos e uma casa para cuidar.
Sendo assim, comportar-se como se o respeito estivesse em fingir uma forma de expressão que não é natural e espontânea é muito mais desrespeitoso do que simplesmente tratá-las com naturalidade e, acima de tudo, sinceridade; considerando que ela tem todo o direito de querer apenas ter uma boa transa, de querer apenas conversar e até de querer encontrar alguém para se casar e constituir um lar e uma família.
Então, acabou o romantismo? Acabou o respeito? Acabou o carinho?
Novamente, a resposta é Não!

Não se com “romantismo” estiver se falando de fantasiar, de sonhar, de querer estar sempre com alguém, isso é natural do ser humano, mas não pode ser imposto. Agora, se isso significar que estamos falando de buscar a pessoa ideal, a relação ideal, o mundo ideal, está na hora de acabar, porque, quem pode dizer o que é O Ideal? Esses ideais precisam mudar, pois foram construídos baseados em uma ideia de dominação de uma classe por outra e, principalmente, de nós, homens, machos, senhores, sobre as mulheres, as fêmeas, o dito sexo frágil. E a questão é que as mulheres de hoje, não querem mais que ninguém diga para elas como têm que se comportar. Na verdade, nem posso dizer o que querem as mulheres, simplesmente, por que sou homem, mas posso dizer que não quero mais agir como um ator que está encenando uma peça e fingindo ser alguém que não sou, falando como não falo, em nome de uma falsa ideia de respeito, só para conquistar alguém. Prefiro conversar e procurar entender como aquela pessoa que está diante de mim pensa, o que ela quer, o que ela deseja, quais são seus sonhos, suas fantasias, seus gostos e ver se gosto dela. E, da mesma forma como espero ser sincero na maioria das vezes, quero receber isso de volta.

20/05/2015

FRUTO PROIBIDO

O espírito de Deus pairava sobre as águas.
E Deus disse “Faça-se”
E tudo se fez.
Fez-se a terra.
Fizeram-se as plantas.
Fizeram-se os animais.
Fez-se o homem
Que devia reinar sobre todos os minerais
Os vegetais
Os animais.
Fez-se a mulher.
Que deveria ser submissa ao homem.
Fez-se o patriarcado.
E depois, Deus disse: “Da árvore do saber, não comerás. É pecado”
Fez-se o monopólio do conhecimento!
A serpente tentou.
A mulher comeu.
O homem comeu.
A culpa caiu na mulher.
Fez-se o machismo.
Deus disse: “Homem, terás que trabalhar para ter o teu sustento.”
Fez-se o proletariado
E tudo então, passou a ser pecado.
Podes ver, podes cheirar, podes ouvir
Mas não podes ter.
É tudo pecado!
E fez-se o capitalismo.

André Valente

S. Paulo, 20 de maio de 2015