17/09/2015

DILMA E AS ELITES

Pessoas, li o texto que segue na seção de cartas da revista Carta Capital. Quero aproveitar a oportunidade para fazer uma análise e uma reflexão sobre ESCOLHA LEXICAL e os efeitos de sentido em relação à realidade a qual se refere a linguagem. Aí vai o texto.
"Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Lula tiveram de fazer concessões às elites brasileiras, a fim de garantir o mínimo de governabilidade. Sabedores da histórica estrutura político-social brasileira mantiveram-se alertas do quanto a elite sempre os quis longe do poder. Infelizmente, Dilma não assimilou muito bem essa lição ao tentar ganhar a compreensão de uma elite determinada a menosprezá-la. Tal ilusão inclui afagos amigos aos impérios midiáticos implacáveis em bombardeá-la, além de tentativas de abrandar o rancor dos segmentos sociais movidos a conservadorismo e ódio de classe. Dilma empenhou-se em dialogar com aqueles que desprezam o diálogo, enquanto pouco dialogou com aqueles que poderiam lhe garantir apoio.
Dilma buscou a ilusão de governar com a aprovação das elites, enquanto deixou passar boas oportunidades de governar apesar das elites."
S. Wessner. em Carta Capital. Ano XXI. nº867. 16 set. 2015.
Para fazer sua análise sobre a atuação do governo presidido pela presidenta (sim, a palavra está registrada no dicionário) Dilma Rousseff o autor usa, predominantemente, verbos no PRETÉRITO PERFEITO DO INDICATIVO - aquele tempo e modo em que os acontecimentos acontecerem em um dado momento do passado, de forma pontual - como por exemplo "empenhou-se", "dialogou", "buscou" e "deixou". A escolha por essas formas verbais demonstra que, para o autor, mesmo de forma inconsciente, o governo de Dilma cometeu erros de forma conclusiva, ou seja, erros que não podem mais ser consertados por ela, pois já foram concluídos no passado. Se quisesse passar a mensagem de que tais erros são cometidos no momento em que escreve, seria melhor usar verbos no presente do indicativo ou o gerúndio, por exemplo: "Dilma empenha-se..." ou "Dilma está se empenhando..."
A escolha lexical, aqui, reflete uma visão pessimista sobre o governo, uma vez que o mandato ainda tem três anos para terminar, mas o autor escreve como se já houvesse terminado. Dessa forma é que a escolha de formas de expressão refletem uma visão de mundo.
É por estas e outras que sempre digo: Não há comunicação sem intenção!

16/09/2015

MÁ TEMÁTICA


“A matemática na prática é sádica
reduziu meu povo a um zero à esquerda mais nada
uma equação complicada
onde a igualdade é desprezada”
Gog

Na escola da periferia...
Na aula de matemática...
Ninguém entende nada...

Problemas? Muitos!
Nenhum resolvido...
Todos multiplicados...

Dividir?
Não!
No mundo é cada um por si.

Igualdade?
Só na miséria
E na falta de assistência...

O sinal de menos lembra o moleque que não veio pra aula
e nem virá...

O sinal de mais é apenas uma cruz...

mais um jovem pobre e preto virou estatística do sistema.

02/09/2015

ESTADO GRAVE


Paciente: Sociedade
Estado: grave, gravíssimo
Risco iminente de falência múltipla de órgãos.

Estamos em coma induzido.

Nossos olhos apenas olham,
mas não veem nada.

Nossos lábios continuam fechados.
Abrem-se apenas para engolir,
sem pensar,
o alimento que nos dão sem sabermos bem o que é.
Dizem que é bom,
é fundamental,
é vital.

Nossas mãos não fazem nada.
Nossos punhos não se cerram.
Não se erguem.
Na palma da mão, nenhum futuro a ser lido.

Estamos em coma induzido
apenas o coração batendo,
sem resposta aos estímulos,
paralisado,
apenas as funções essenciais,
sem essência.

Os dias passam,
o sangue corre devagar,
não esquenta.

A anestesia geral nos mantém em estado letárgico.
Dizem que é essencial para nos proteger.
E nós, pacientes,
apenas esperamos que nos apliquem a eutanásia.
Mas não é permitido,
somos fundamentais...
Sem nosso estado gravíssimo,
a imensa fábrica de placebo enfraquece,
sem nossa letargia,
os anestésicos oferecidos todos os dias não fazem sentido.


Sem nós, não há essa tal sociedade.