30/05/2011

Memórias de eu criança I


Eu sempre brinquei com as palavras.
As palavras brincaram, sempre, comigo.
Brincam, comigo, sempre, as palavras...
Quando eu era criança, minha mãe ia a um centro espírita e me levava. Eu gostava muito de ir, porque era o quintal da casa da minha tia. Tinha um parquinho. A roda era o meu encanto. Aquela roda em que a gente se sentava e rodava... rodava... Eu gostava de correr empurrando a roda... corria, corria, corria e me jogava sentado e sentia o vento e tudo rodando...
No centro, tudo rodava também. A imagem de Jesus tocando a cabeça da mulher ainda agora é nítida em minha mente... e até hoje ela está aqui... rodando...
Mas, o que mais me impressionava, o que mais me chamava a atenção e me fazia pensar infinitamente era a palavra Espiritual... Veja, espíritu... al... espírito... au...
Na cabeça da criança, espírito au era espírito de cachorro...
Eu sempre brinquei com as palavras.

28/05/2011

Poder sonhar

            “Nunca me dês o céu. Quero é sonhar com ele.”
                        Mário Quintana

Onde estão os sonhos?
Mandam buscar sonhos,
Mas não há sonhos à venda.
Mandam construir sonhos com a mais avançada tecnologia
Mas sonhos não são de ferro,
Não são se plástico,
Não são de ouro.
Não são de silício.
A matéria dos sonhos não pode ser manipulada

Sonhos são sonhos

Não se podem comprá-los a crédito
Não se podem baixá-los da internet
Não se podem patentear os sonhos
Não se fabricam sonhos em escala

Sonhos surgem do nada infinito, aqui e ali

Não há etiquetas para os sonhos
Não há valor para os sonhos

Sonhos não são contáveis
Não são contábeis

Os sonhos nascem do simples olhar
Elefantes nas nuvens, jacarés, a mão dizendo tchau
nos porões empoeirados de casas antigas
Onde fantasmas nos assombram deliciosamente
Onde a luz da lua cria sombras que ganham vida.

Quantos sonhos desenhei nos quintais de minha infância...
A cidade, ruas, casas, chuva? O sol bem grande pra brincadeira continuar.
Sonhos são construídos com pau, pedra, lápis, papel, um volante velho, viagem.

Sonhos não têm controle remoto,
Sonhos são joelhos no chão, terra, lama depois da chuva.

Que pena tenho das crianças que não têm com quê sonhar.
Tudo está ao alcance de um dedo, dum botão.
Não há quintais, não há terra.

Apenas um sonho ainda resta para essas pobres crianças: o sonho de poder sonhar.

26/05/2011

NÃO TENHO IDADE


 Não tenho idade
Sou jovem com os jovens
Maduro com estes.

Não tenho geração
Faço minha geração a cada instante.

Busco reviver sempre

Não tenho tempo.
É sempre ser e não ser.
Para poder ser sempre
Supero a idade, a geração, o tempo.

Nasci, um dia hei de morrer, mas não hei de envelhecer.

24/05/2011

Só a Arte


Somente a arte
retrato da vida pela lente da magia
transforma em cor o cinza dos dias
burocráticos, asmáticos
neuróticos, epiléticos,
tetraplégicos.

Quando penetra a alma humana
arranca o medo-algema
o silêncio-mordaça
a mesmice

Sua invasão devasta,
é nefasta,
questiona as certezas e as incertezas
torna transparentes todas as faces
então, já não há limites pra se olhar

já não há esquerda ou direita
em cima, embaixo
grande ou pequeno
só existe a arte.

A arte é o adubo milagroso que faz nascer flores em solo estéril.

22/05/2011

Celebração Surreal

É preciso celebrar os sonhos.
A verdade alternativa.

Não há mundo real, há sonhos reais.
Sonhamos que vivemos.
Vivemos sonhando.

Não há fronteiras.
Os sonhos de olhos abertos, cegos.
De olhos fechados vê-se mais,
Porque se vê o que há antes da visão.
O que é antes de ser.
O que é sem ser.
O que é ser.

Um dia ouvi: “Sonhar é acordar-se para dentro”
Então tive medo do pesadelo da vida.
É pesadelo, cheio de limites.
Muros, correntes, relógios, sinais
Cores, sons, números.
Fins.

O sonho é a viabilidade vital.
É quebrar os relógios,
Espalhar a areia das ampulhetas e ver o tempo voar.
Não deixar o tempo existir.
Ser sem fim
Sem começo.
Sem cores
Sem formas.

Sonho é vida escoando e ecoando eternamente.

21/05/2011

Ser Humano


Gosto do ser humano, simplesmente pelo ser
Mas, pelo ser humano, ser ele, simplesmente ele
ser humano.

Não o católico, não o espírita, não o judeu,
o budista, o protestante, ou o ateu.
Simplesmente o ser humano.

Não o que é definido.
O que está inserido em algum contexto.
Pois não é ao contexto que amo, mas ao ser humano.

Não aquele que faz algo,
ou que diz algo,
ou que pensa algo.
Não importa o que faz,
o que diz,
o que pensa,
ele é o ser humano

Gosto da liberdade de ser,
ser humano,
sem ter que ser nada,
mas, simplesmente,
ser humano.

16/05/2011

Reencontro


Bom encontrar comigo de novo, depois de tanto tempo. Fica aquela sensação de reencontro com um amor que foi deixado pra trás sem muita explicação. Olha-se para o amor reencontrado e se tem a nítida sensação de que ele está tão melhorado, mais bonito, mais elegante, mais feliz... Guarda no olhar um ar de saudade, de certa tristeza, mas parece também ter melhorado algumas coisas: um trejeito? A roupa? O cabelo? O olhar? Emagreceu? Voltou a malhar? Releu antigos livros? Mudou... Não se sabe exatamente em quê, mas mudou sim, tenho certeza.
Nossa! Quanto tempo! Lembro que não me deixava fazer algumas coisas, colocava defeito em tudo, pensava de um jeito que não parecia verdadeiro, por isso, entramos em crise, ele não era autêntico. Agora, não. Parece tão senhor de si, mas ao mesmo tempo, tem um olhar tão conciliador, compreensivo, muito mais simpático, encantador, apaixonante.
Que bom encontrar comigo de novo e ver que aquele por quem um dia me apaixonei está de volta e melhor.