20/07/2012

EU E MEUS AMIGOS


Já corri muito na rua, entrei em terreno baldio, botei fogo no mato, joguei muita bola com trave de pedra, joguei futebol de botão, taco, brinquei de polícia e ladrão, fiz coleção de figurinha e de bolinha de gude, aprendi rodar pião com vinte anos, tentei aprender a empinar pipa, mas era ruim de briga, mas também, já briguei muito, sempre fui um boca dura, um teimoso, um centralizador, joguei pedra, joguei terra para o alto, acampei em uma casa em construção, sem água encanada, sem luz elétrica. Deitei no buraco cheio de água da chuva e fiquei enlameado.
Já passei mal tomando leite de vaca, já tive que tomar leite de vaca por que todo mundo ia tomar, fiz muito trabalho de escola, briguei, sorri, chorei. Chorei quando a menina mais linda me trocou na frente de todo mundo pelo menino que dançava melhor. Tentei aprender a dançar muitas vezes, e continuo tentando. Tem sempre alguém para ensinar ou para rir.
Fugi da professora substituta, fugi para o shopping center, quase fui roubado, meu pai descobriu.
Contei segredos, escondi verdades, inventei mentiras. Me apaixonei, namorei, traí, fui traído, fiquei flutuando de paixão e puto pela enganação. Tive que ser contido, andava de um lado para o outro. Fiz ameaças, juras, promessas. Me arrependi do que disse, pedi desculpas, mantive meu orgulho. Fui desculpado. Assumi culpa que não era minha. Assumi as que eram. Neguei algumas...
Fiz muita palhaçada em festas de criança. Criança vizinha, criança rica, criança pobre, criança parente, criança carente, criança indiferente. Fui chamado de palhaço e acabei com a briga porque disse que era sim.
Dormi no gramado da escola, fui pra biblioteca ler Henfil, Graúna e às vezes, chegava atrasado à aula. Andava na rua da Mooca sem ter o que fazer, só pra passar o tempo e olhar as pessoas. Tirava sarro do instrutor careca. Tirava sarro do jeito do colega falar.
Tomava olé no futebol, chapéu, drible da vaca, sempre fui ruim de bola, mas sempre fui grande e troncudo, era olé e paulistinha no craque que saia tirando sarro.
Briguei por causa de time, fiquei de mal humor pela derrota, enchi o saco pela vitória. Fui para o Anhembi comemorar, gritei muito na rua. Pintei rua e muro para a Copa, comprei camisa, faixa, bandeira.
Fiz parte do grupo de teatro, montei um grupo de teatro, ri, chorei, me emocionei, briguei, atuei, dirigi, fui dirigido, amei, odiei, fui Romeu da Julieta, Pequeno Príncipe, Espírito das trevas, Mentor espiritual, Palhaço no conto de fadas, fui pai, fui filho, senador da roma antiga, anjo desajeitado.
Cantei em karaoquê, andei do Tatuapé à Vila Formosa, de madrugada, dormi em banco de praça.
Ganhei prêmio de aluno destaque, tirei nota baixa, virei motivo de chacota. Fui representante de turma, participei da formatura. Prestei vestibular, passei, comemorei, aprovei com nota dez, com nota cinco, com nota sete, reprovei, fiquei na fila da matrícula, encontrei, lá longe, vizinho que morava perto. Fizemos estripulia no ônibus, imitamos um programa de rádio no ônibus. Dormi muito no ônibus, no metrô, no trem, no meio de uma conversa.
Discuti na hora do trabalho, questões inúmeras: arte, filosofia, religião, amor, sexo, música, cinema, trabalho, política, casamento. Mudei de emprego, busquei outra carreira, voltei para o emprego antigo, fui rebelde, critiquei, fui criticado.
Minha avó morreu, meu pai morreu...
Casei, descasei...
Enfim, vivi a vida de inúmeras maneiras. Senti emoções contraditórias. Tive opiniões contraditórias. Surpreendi. Decepcionei. Venci. Perdi. Empatei. Admiti. Neguei. Fiquei sem resposta. Acertei. Errei. Cantei. Bebi. Comi muito, pouco. Tive fé, duvidei, questionei.
E em tudo isso, apenas uma pessoa esteve sempre presente: UM AMIGO, UMA AMIGA.
É a você, que compartilhou de um pouco de tudo isso comigo que dedico essas lembranças.
OBRIGADO POR TUDO. SEJA QUEM FOR, SOU O QUE SOU COM SUA PARTICIPAÇÃO.
UM GRANDE ABRAÇO, MEU AMIGO, MINHA AMIGA, DE ANOS, DE MESES, DE DIAS, DE ONTEM, DE HOJE, DE SEMPRE!