26/07/2015

RESISTIR É PRECISO!

Acho que já consigo escrever algo. Acho que preciso escrever algo.
Este foi um final de semana dilacerante, doloroso, inacreditável. Enterrei uma amiga que decidiu pôr fim a sua vida. E por quê ela fez isso? Não sabemos exatamente. Ela não deixou um bilhete; nada. Apenas e simbolicamente enforcou-se, talvez para sufocar gritos que a angustiavam.
Ela tinha apenas 27 anos completos há apenas 25 dias. Era dona de uma invejável inteligência, de uma invejável beleza, composta de lindos olhos azuis, cabelos cacheadinhos, um rosto meigo e um corpo admirável; de uma invejável capacidade de realização... Mas, incrivelmente, não acreditava em nada disso. Dizia que nada fazia direito, sentia-se incapaz, gorda, não-produtiva.
Ela passava por um momento difícil em que um empreendimento não dava os resultados esperados e ela não conseguia recuperar o investimento. E sentia-se cobrada por isso, por pessoas que tinham tudo para dar apoio, incentivo, afeto. Gente que, agora, está preocupada com o que restou...
No buraco que sua partida deixou, algumas questões ficaram mais fortes: por que tantas vezes vejo gente rindo, cochichando, fazendo caretas quando digo que dinheiro e bens materiais não trazem felicidade? Entre tantos motivos, ela decidiu fugir do fracasso. Ela desistiu de lutar contra um mundo capitalista, opressor, que desengana, que frustra, que julga e que pouco ou quase nada faz para ajudar. Ela desistiu de tentar ter a beleza que acreditava ser a ideal, por que disseram que ela tinha que ser magra, alta, peituda, bunduda... Ela desistiu de ser inteligente em um mundo que valoriza a esperteza de quem "pode mais". Ela era historiadora, mas este é um mundo para administradores, engenheiros, advogados e não para historiadores, pois História não dá dinheiro, não dá status e, assim, ela se sentia nao-realizada. Ela queria ter seu restaurante, mas diziam que ela tinha que ser doutora, que não estudou história para ter um restaurante, mesmo sem pensar que ela, uma mulher, tentava ser dona de um empreendimento onde de cinco pessoas, com ela, quatro eram mulheres e quatro eram negras, num mundo de brancos e homens que dominam. Ela desistiu, pois se sentia fracassada por não conseguir arrumar emprego, pois neste mundo, se não se está no "mercado de trabalho" não se é ninguém.
Nossa amizade começou há três meses, durou pouco, mas sua partida está doendo muito.
Mas, que esta dor sirva para continuar trabalhando, estudando e lutando por um mundo diferente, livre desse sistema que oprime e derruba a auto-estima de quem não pode com ele, para que cada vez menos de nós tenhamos que ver pessoas desistindo, pois resistir é preciso!

23/07/2015

ORGULHO E MISÉRIA

Voltava para casa de mais um dia de trabalho.
A aula sobre Romantismo me fez falar sobre Victor Hugo e sua literatura engajada.
Ele, autor, de Os miseráveis.
Falei de como a literatura romântica, em seus ideias, tira o homem da realidade, colocando-o na fantasia, no mundo da imaginação.
Caminhava para a estação da Lapa, para pegar meu trem, quando um miserável homem que vive na rua começou a gritar enquanto agitava os braços: Eeeeeuuuuu sou brasileirooooooooo com muito orgulho, com muito amooooor...
As pessoas passavam e olhavam com olhar de estranheza. Outras, nem olhavam. E eu, tirado do mundo da fantasia e da literatura pensava no Brasil, que se orgulha de Victor Hugo, mas que não reconhece os miseráveis em suas ruas, não ouve o grito desses brasileiros e que não devolve com o mesmo orgulho, esse canto, que talvez seja meramente um canto, enquanto o homem com os braços agitados é real e sua situação não é motivo de orgulho algum.

André Valente

S. Paulo, 1 de junho de 2015