“Tem certos dias em que eu penso em minha
gente
E sinto assim todo meu peito se apertar.”
Vinícius
de Moraes e Chico Buarque
O
canto do povo é como o bálsamo que aplaca as feridas,
ou
como a faca que as rasga ainda mais,
expondo-as
para escarmento dos olhares indiferentes.
As
feridas duramente e friamente causadas
na
carne e no espírito, pelos espinhos,
do
desinteresse,
do
descaso,
do
desprezo.
O
canto do povo é cheio de contrastes,
entre
o que se canta e o que se é.
O
povo que canta a alegria de viver,
a
bola, a cama e o prazer,
mas
vive sem sorrir,
mal
dorme,
deve
contentar-se com um prazer ínfimo
e
com a bola na rede e o grito de gol,
o
casamento, os filhos, o final feliz da novela,
ou
a receita do programa matinal,
que
ensina a cozinhar a nação,
sem
comida na panela.
O
canto do povo é cheio de culpa.
Mas
a culpa não cria,
não
enche barriga,
não
paga conta.
O
canto do povo tem que defender o grito de protesto,
questionar
o contexto e não aceitar o pretexto.
O
canto do povo entende seu falar torto,
seu
odor incômodo, no vagão do trem,
seu
erro que parece constante.
O
povo está sempre errado,
porque
não consegue cumprir lei,
que
é do mais forte.
O
canto do povo não amaldiçoa a morte que o leva,
em
dia de balas achadas em filhos perdidos;
não
maldiz a água que alaga,
o
fogo que consome,
a
febre que o derruba no corredor do hospital.
Porque
a morte, a água, o fogo e a febre são pagas,
pelos
donos do dinheiro pelos serviços prestados.
O
povo é essa gente que não sabe que é cantada,
que
não sabe que é pensada em discussões acadêmicas,
que
é analisado pelo brilhantismo intelectual,
que
não lê as teses escritas em linguagem que não entende.
O
povo é essa gente que vive como gado,
que
anda a pé
e
apertado,
come
pouco,
dorme
mal,
mora
longe,
morre
fácil,
sofre
muito.
O
canto do povo revela o que há de podre
no
reino encantado do mais forte.
Destoa
do coro dos contentes de barriga cheia,
escola
boa,
garagem
ocupada,
morada
quente,
segurança
plena
e saúde perfeita.
O
canto do povo nada sabe do casamento britânico,
da
biografia do jovem astro pop,
dos
arrastões nos restaurantes da elite,
do
“terror” nos condomínios de luxo.
O
canto do povo, sabe, apenas, quem é o povo.

