27/06/2015

Não me especifiquem
Não me qualifiquem
Não me rotulem
Não me ordenem.


Deixem-me apenas ser!

17/06/2015

RACISTA EU?

É, a coisa tá preta.
Nego diz que existe racismo...
Que isso? No Brasil? Imagina, isso aqui é uma mistura...
Eu, por exemplo, sou branco, neto de italianos, mas tenho muitos amigos negros, tudo gente boa, estudada, culta honesta. Não sou racista! Eu e meus irmãos somos casados com mulheres de cor.

Sou totalmente contra o racismo. Ninguém pode denegrir uma pessoa por causa da cor escura, do cabelo ruim, dos traços rústicos. Cada um é como é.
Eu não admito racismo perto de mim.

Que foi? Não tá gostando da conversa? E quem é você pra querer me dizer o que é certo? Você não manda em mim não! Eu não sou suas nega!

Eu não consigo entender como alguém pode ser racista no Brasil! Poxa, tem coisa mais linda do que as mulatas sambando no carnaval? Aquele corpo! Aquele rebolado! Aquela cor do pecado! E o gingado que eles têm? Eu morro de inveja! Mas é inveja branca hein!

Sabe, aquela beleza exótica é demais. Quem é que não gosta de uma morena ou de um moreno tipo exportação? Coisa mais linda!

Além disso, quem é que pode dizer que é puro nesse país? Todo mundo tem um pezinho na senzala!

Mas, sabe o que eu acho? É que os próprios pretos são preconceituosos! É só olhar na rua! O negão tá sempre acompanhado de uma loira! Eles mesmos não valorizam a raça deles. E depois reclamam.

E tem outra coisa, tem muito negro que pratica racismo inverso. Não pode ver um branco que já começa a xingar.

E aquele feriado da consciência negra? Precisava daquilo? Já não tem o 13 de maio? E a consciência branca, quando é o dia?

O quê? Oi? Pois não!? Você quer falar? Desculpe, mas não é por que você é negro que vai desrespeitar minha opinião! Eu não quero discutir com você! Poxa, estou aqui defendendo a raça de vocês...

Bom, acho melhor eu parar. Tenho que ir! Está tarde e amanhã é dia de branco!

André Valente
S. Paulo, 17 de junho de 2015.



(Atenção, isto é uma crônica. Mas qualquer semelhança com a realidade dos fatos, não é mera coincidência.)

10/06/2015

POESIA

Poesia é vida pulsando no secreto de cada um.
No não ser das coisas insabidas.
Na insatisfação do entendimento.
Na beleza das coisas invisíveis.
Na fluidez do que parecia sólido.

Poesia está onde os pés não conseguem pisar.
Onde os dedos não podem tocar.
Nos sons que os ouvidos não sabem que ouvem.

Em tudo que só pode ser descrito por termos desconcertados.
Naquilo que só existe na alquimia de sons, formas e sentidos incompatíveis.

Poesia é a decomposição das palavras exatas.
É o carvão da queima das razões.
É a borra que resta após o brinde ao pensamento.

Poesia é loucura
é devaneio
é o que não era e talvez não seja assim tão simples.

QUE ME LEVE A VIDA



“Tem dias que a gente se sente, um pouco talvez menos gente”, já dizia Raul Seixas...
É mas a gente vai levando...
Paulada na cabeça... pé na bunda... chute no saco...rasteira... e vai sendo levado pela vida... como dizia Cazuza... Vida louca... vida... vida breve... já que eu não posso te levar quero que você me leve...

Dizem às vezes que temos que ter o controle de tudo... mas como ter o controle de tudo se não sabemos de tudo e se tudo que sabemos às vezes é nada? E se não temos controle nem de nós mesmos... e jamais teremos, pois quem tem controle é máquina... gente não!

Amanheço às vezes com uma vontade enorme de dormir... de ser louco... de não ter que saber quem eu sou... onde estou... por que estou aqui... e tenho também, às vezes, a sensação de ser alguém em algum lugar, com alguma coisa pra fazer...

Mas é mais legal não saber o que se faz, porque assim se faz mais tranqüilo...

Geralmente, quem sabe sempre o que faz é muito chato; faz tudo quadrado porque o que sabe é lei. "São tantos anos de experiência". Frase mentirosa, vinda da consciência entorpecida de quem apenas repetiu em tantos anos o aprendizado de apenas um.

“Quero antes o lirismo dos loucos.” Salve, mestre Bandeira.

“E está fundado o desvairismo...” com o perdão do plágio, Mário, mas é isso...

Que a vida me leve de leve!

03/06/2015

ORGULHO E MISÉRIA

Voltava para casa de mais um dia de trabalho.
A aula sobre Romantismo me fez falar sobre Victor Hugo e sua literatura engajada.
Ele, autor de Os miseráveis.
Falei de como a literatura romântica, em seus ideais, tira o homem da realidade, colocando-o na fantasia, no mundo da imaginação.
Caminhava para a estação para pegar meu trem, quando um miserável homem que vive na rua começou a gritar enquanto agitava os braços: Eeeeeuuuuu sou brasileeeirooooooooo com muito orguuulho, com muito amooooor...
As pessoas passavam e olhavam com olhar de estranheza. Outras, nem olhavam. E eu, tirado do mundo da fantasia e da literatura pensava no Brasil que não ouve o grito desses brasileiros e que não devolve com o mesmo orgulho, esse canto, que talvez seja meramente um canto, enquanto o homem com os braços agitados é real e sua situação não é motivo de orgulho algum.

André Valente

S. Paulo, 1 de junho de 2015

02/06/2015

A DROGA DO CONHECIMENTO

Ser professor, em um mundo em que a ignorância, a truculência, a violência ainda predominam e são confundidas com simplicidade, firmeza e a tal “pegada forte”, é praticamente um ato subversivo, criminoso. Ensinar a pensar, é como oferecer uma droga perigosíssima.
Professores, somos traficantes procurando, de toda forma, aliciar novos jovens. Oferecemos pequenas porções, no começo, só pra viciar. É um poema recitado em uma primeira aula, uma piada com o conteúdo de uma aula, uma musiquinha, uma dança, uma curiosidade, o desvendar de pequenos segredos das ciências, tudo para que o jovem queira mais desse barato, dessa aventura, dessa viagem que é cheirar um pouco de pó de conhecimento, fumar um baseado de equações, ligações químicas, letras, filosofia, sociologia; injetar um pouco de física veia adentro, engolir uma balinha de geometria, dos acontecimentos históricos que nos fazem viajar no tempo.
Depois de consumir essas drogas, não se espante se diante de você começarem a aparecer figuras geométricas escondidas nas formas das coisas que antes eram só coisas. Não estranhe se tiver alucinações de que a sociedade de hoje é muito parecida com aquela estudada nas aulas de história ou se notar que está tendo alterações de pensamento e até de forma de se expressar, de olhar, de se vestir, de consumir. Esses são indícios do domínio da droga-conhecimento em você.
Se as antigas certezas e verdades começarem a não ter mais sentido, aí ferrou, você está em estado grave de alucinação, cuidado, não deixe que percebam, senão podem te internar e lá, onde vão te levar, dão um tratamento brutal com várias sessões de programas de auditório dominicais, músicas vazias de conteúdo que te ensinam a tratar mulher como coisa que você pega e tain tain tain... Há também, terapia corporal, com dancinhas ridículas ao som de músicas que não dizem nada, nem tem qualidade sonora. Te entregam uns manuais de como viver em sociedade e dirão para que você veja tudo como em nossa época isto é... e dizem que se você ler aquelas revistas e jornais, saberá a verdade de tudo. Então, cuidado, ser viciado em conhecimento, é perigoso, pode te levar a não saber o que é a realidade que te ensinaram a ver.

Enfim, qualquer dia desses podemos ser presos por estarmos pondo a perder todo o investimento em tornar o mundo mais alegre e satisfeito com tão pouco que é oferecido através da TV, do rádio, dos jornais, da internet e que brilha aos olhos, mas torna o mundo profunda e tristemente careta.