18/11/2011

DO OLHAR AO SUSSURO

Mulher, teu corpo delicado precisa de braços fortes, de um tronco largo, de pernas que te possam envolver e aquecer no frio inverno. Teus lábios precisam de outros capazes de deixá-los úmidos, vermelhos, sequiosos.
Teu pescoço precisa da respiração que te faça fechar os olhos e se deixar levar e de beijos suaves e quentes que te façam arrepiar.
Parece que vejo teus poros dilatando, tua respiração aumentando, teu coração acelerando.
Vejo teu corpo tornar-se mole, frágil, entregue.
Tua pele cola em cada parte do meu corpo, as mãos viajam pelos vales e montes de tua feminilidade e volúpia.
Ouço tua voz perder-se em sussurros, sem saber bem o que dizer.
Sinto cada parte de ti como se fosses infinita, não sei aonde ir, mas vou ardentemente, buscando e encontrando algo novo a cada chegada.
Teus seios, joias da natureza, macios, delicados olham para mim fixamente, pedindo o toque, o beijo.
Perco-me indo e vindo, em teus pés delicados, como frutos prontos a serem degustados, em tuas coxas onde me afundo, no doce e agreste rosado de teus lábios que me pedem um beijo.
Beijo essa flor, esse fruto, esses lábios e sinto por entre os meus o mel de tua flor onde sou apenas beija-flor, operário de teu prazer.
Teu corpo, se contorce, tuas mãos buscam meus cabelos, seus dedos tomam os fios e sinto-me levado por você.
Meus lábios percorrem o veludo de teu ventre, deliciando-se no macio de tua pele quente e fresca, doce e salgada, delicada e sedutora.
Escalo teu corpo com meus lábios, com minhas mãos, com meu peito, com minha cintura, com minhas pernas.
Minhas mãos tomam-te por inteira.
Então, o encontro adiado e esperado e sinto o macio e suave de teu interior.
Que causa em mim completa perdição.
Sinto-me tocar em ti, sinto-me entrar em ti, sinto nossos corpos lutando, se batendo, se querendo cada vez mais.
Suas unhas rasgam em delícia e ardor a pele das minhas costas.
Teus dentes cravados em meu peito, marcam a loucura que me toma.
Na língua o gosto da gota que verte de tua pele fervente.
O toque, o aperto, a invasão, as palavras nada puras.
A pressão de nossas peles.
Os olhos fechados.
A cabeça pendente.
Os gemidos frequentes.
A pulsação dentro de ti.
O tempo que se perde.
O calor e o calafrio.
O mundo que se acaba.
A saliva na boca, na língua, na pele.
Teu quadril.
Tuas costas.
Tua nuca.
Teus cabelos entre meus dedos.
O impacto de nossas peles faz música aos ouvidos amantes.
O ritmo.
O grito, sem pejo, sem censura, sem dúvida.
O beijo longo, molhado, línguas que se perdem, mãos que acariciam.
O cansaço da felicidade.
O olhar fixo e perdido dentro de mim e de ti.
A calma, a ternura.
Tua cabeça e tuas mãos em meu peito.
O beijo no pescoço.
Dedos se entrelaçam.
Pernas se entrelaçam.
Olhares.
Debaixo do cobertor descansamos, entrelaçados, sussurrando...
 
André Valente
São Paulo, 17/11/2011

22/10/2011

O VERDADEIRO DEFICIENTE

Passo agora, em verso puro
Verso franco e eficiente
A cantar sobre a tristeza
Do real deficiente.
O que tem o corpo bom
Na alma falta pedaço
Pra entender com o coração
Os versos que aqui faço.

Deficiente não é o homem
Que tem defeito no corpo.
Sei que o corpo é instrumento
De grande utilidade
Mas, Deus que é tão perfeito
nos mostra a realidade
Deficiente é aquele
Que apesar do corpo bom
Tem no peito a maldade.

Não há coisa mais doente
que mente maliciosa
Do que o cérebro perfeito,
E a cuca engenhosa
Que serve de mau exemplo
Que pensa coisa raivosa

Pior cego é o que não vê
Com olhos do coração
É o que tem vista perfeita
E fecha os olhos com a mão
Pra não ter que ver no mundo
sofrimentos de um irmão.

Surdo é o sujeito que ouvinte
Bem capaz de escutar
Mas parece que não ouve
Quando alguém está a chorar
Pois tem preguiça de agir
Para o outro ajudar.

Aleijado não é o homem
Que não tem membro qualquer
É o que fica parado,
Seja homem ou mulher
Com tanta gente no mundo
Esperando abraço amigo
Que do coração vier
É quem não estende a mão
Pra um amigo ou irmão
Se retorno não tiver.

Preste muita atenção
Use a sua inteligência
Deficiente é o coração
Que com muita ignorância
Não enxerga o irmão
Por trás da deficiência.

12/10/2011

A criança? Persiste
Insiste
Não cresce

Os medos
Os sonhos
Faz de conta que somos nós

O não
Raiva
Bater porta
Bater pés

Dormir tarde
Sofrer antecipado
Acordar feliz
Dia de sol
Banho de chuva
Sol e chuva
Chuva e sol
 
Ternuras amantes
Tati-bi-tati
É esse? Não
Beijo, abraço, salada mista
Passa anel
Boneca
Ternuras crianças
Tati-bi-tati
Medo de solidão
Medo de escuro
Medo de altura
Rir fora de hora
Chorar sem ser preciso
Falar demais
 
Misturar chocolate com refri
Doce com salgado
Dançar, cantar, reviver
Ressurgir, recriar.
 
Ser criança.
Sempre.

André Valente

12/10/2011

04/10/2011

VERBO TRANSITIVO

Sem você, seria um sujeito sem predicado Verbo sem complemento
Sem voz
Sem tempo para viver
Sem modo para agir
Impessoal
Defectivo
 
Minha felicidade é subordinada à sua
Minha oração só faz sentido se você for o adjunto de meu nome
Entre mim e você apenas uma conjunção é possível
Aquela que te adiciona à minha vida
E faz de meu viver um verbo mais que perfeito.

16/09/2011

AMANDO VIVO

Será amor apagar-se para brilhar o ser amado? Será amor morrer para que o outro viva plenamente?
Será amor a troca do meu eu por um falso nós que me anula como se houvesse plural para nossas vidas?
Mas que plural se o que há é a singularidade de uma vontade que sufoca a outra?
Como poder dizer “Eu te amo” se o melhor de um foi sufocado pelo medo do outro?
Será amor essa disputa?
Será amor o sufoco? A falta de riso? De beleza? De alegria?

Não quero o amor que não é oxigênio para minha alma. Refrigério.

Quero o amor-cor.
Amor-brilho.
Amor-riso.
Amor-sol.
Amor-flor que brota no peito e faz buquê das melhores verdades que perfumam a vida.

Quero um amor-mistério que me faça buscá-lo a cada vão momento.
Quero um amor selvagem que me traga a sensação de estar caminhando por uma floresta, sem saber o que há atrás de cada árvore.
Quero o amor amigo e amante que me olhe do mesmo jeito quando chego na festa e quando acordo no dia seguinte.
Quero um amor que se sabendo sabendo que há finitude acredita no infinito.
Um amor que é estar preso por vontade.
Que me dê liberdade de amar sempre.
Que sabendo de outros corpos e outras bocas, sabe que só há um coração.

30/08/2011

A desejada das gentes

Quando a felicidade bater à porta de sua vida, não demore muito a atender.
Nem perca muito tempo olhando pelo olho mágico, ela pode se cansar de esperar e ir embora.
Não faça muitas perguntas para deixá-la entrar, ela pode se cansar de ter que explicar sua vinda e desistir de ficar.
Não seja muito exigente para recebe-la, ela não é tão exigente para vir, ela vem sem marcar dia nem hora.
Ela não repara em casa bagunçada, roupa velha, cabelo despenteado. A felicidade é simples. Portanto, não a adule com mesa farta, presentes, perfumes excessivos, ela não precisa de tanto. Ela gosta de sentir que não nos deu tanto trabalho, que nós estamos sendo nós mesmos quando a recebemos.
Ela não gosta de fingimento, falsidade ou artifícios. A felicidade é autêntica.
Quando estiver com ela, não fale mal do passado, nem se preocupe demais com o futuro e nem com o tempo que ela vai ficar, ela não gosta muito de relógios. Aproveite sua chegada e faça-a sentir-se em casa, quem sabe ela não decide morar por muito tempo com você?
Não imponha condições para que ela possa ficar; a Felicidade não gosta muito de receber ordens, costuma fazer tudo do seu jeito e esperar que os outros entendam.
Enfim, quando a Felicidade chegar, receba-a como se fosse a última visita dela. Aprendendo a recebe-la, com certeza ela gostará de sua recepção e voltará muitas vezes.

ATREVIDO

Atrevo-me a falar de amor
a essa altura do tempo.

Atrevo-me a falar de amor
diante da incerteza.

Atrevo-me a falar de amor
em face a falsidade

Atrevo-me a falar de amor
até quando ele me confunde

Mas não basta a querer afirmar tanto atrevimento o falar.

Mais que isso, atrevo-me a amar.

24/08/2011

NO MEIO DO CAMINHO

Com a licença de Drummond


No meio do caminho tinha um olhar
Tinha um olhar no meio do caminho
Um olhar
No meio do caminho
Tinha um olhar.

Nunca me esquecerei do seu olhar
Em minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha um olhar

Tinha um olhar no meio do caminho
No meio do caminho tinha...

O seu olhar.


André Valente
São Paulo, 24/08/2011

11/08/2011

Teus olhos verdes

A verde relva não tinha Essa cor, antigamente
Era uma cor fraquinha
De um verde descontente

Um dia, fez Deus uns olhos
Tão verdes como esses teus
Que olharam admirados
O verde que via os meus

Quando sentiu esse olhar:
“Que doçura, que encanto”
Pediu, a relva,em pranto
O mesmo verde a brilhar.

03/08/2011

AMOR PONTUAL

Quando já não parecia possível me apaixonar, chegou você e trouxe de volta o encanto da paixão.
Quando as coisas pareciam perdidas, encontrei tudo em teu olhar. Um olhar de reencontro. Um olhar que não é de hoje. Naquele momento nos reconhecemos e tudo se tornou tão diferente, para você e para mim.
Passamos a viver um paradoxo: tudo parece tão antigo e tudo parece tão novo.
Meu coração salta como se finalmente tivesse encontrado algo perdido.
Você trouxe de volta a alegria da juventude.
Músicas que não eram mais ouvidas voltaram a fazer sentido.
Nova vida. Nova alegria. Novos sorrisos. Novos carinhos.
Sonhos estão se realizando. Outros sonhos nascendo ou renascendo.
Quando nada disso parecia possível, você chegou.
Na hora certa.

29/07/2011

PRA VOCÊ GUARDEI

Meu melhor olhar. Meu sorriso mais franco.
Meu afago mais terno.
Meu toque mais ousado.
Minhas melhores palavras.
Meu melhor antes, durante e depois.
O beijo mais saboroso e amoroso
na cama antes do sono, abraçado,
também guardado pra você.
O amor mais profundo e nunca imaginado,
que a vida guardou pra nós.

26/07/2011

REESTREIA

Convido você e os seus para a reestréia do meu espetáculo.

Fique atento, não vá perder a hora do abrir das cortinas.

Cada cena é única.

Cada fala.

Cada gesto.

Cada ator.

Este espetáculo não se repetirá.

Atenciosamente,

o Sol.

22/07/2011

O QUE SE GANHA COM O TEMPO

Leio em uma crônica de Affonso Romano de Sant’Anna que a partir dos trinta anos começamos a perder. Perdemos células da pele, perdemos neurônios, perdemos a visão, a audição, o paladar, o olfato, isso é o envelhecimento, mas a caminho dos meus trinta e três anos me recuso a envelhecer, me recuso a pensar nas perdas quando posso pensar no ganho. A crônica me faz pensar: o que se ganha com o tempo?


Começo, então, a fazer o balanço de minha vida e noto que um grande ganho é a percepção de que aos trinta e dois, por mais que se tenha vivido, viveu-se pouco. O que se tem para viver é muito mais. Com o passar dos anos, a vida se torna elástica, é possível perceber o quanto deixamos de ver, de ouvir, de sentir, de viver. Mas a vida é generosa – desde que aceitemos sua generosidade – e nos oferece sempre novas chances e com o tempo, as chances parecem tão diferentes de antes. Cabe a nós aproveitarmos.

Com o tempo, ganhamos a liberdade de ser quem somos, pois já não há mais por que ficarmos tão preocupados com o que vão pensar de nós. Nossos gostos, nossos medos, nossas manias, nossos vícios passam a ser cada vez mais nossos, para fazermos deles o que bem entendermos. Se assim quisermos.

Com o tempo, ganhamos a coragem de mudar de opinião de uma hora para outra sem o medo de parecermos contraditórios e de expressar nossas opiniões e arcarmos com as conseqüências.

O tempo nos trás a certeza, cada vez mais certa de que o que se é vale muito mais do que o que se tem.

O tempo nos permite revivermos a juventude com um vigor muito mais puro, pois é o vigor da alegria, da liberdade, da tranqüilidade, do equilíbrio de vivermos enquanto valer a pena.

O tempo nos mostra que viver vale mais a pena do que morrermos gradativamente pensando nas perdas ou distraídos pelo medo de encararmos a vida.

Com o tempo, ganhamos um grande amigo: O tempo.

19/07/2011

APENAS UM OLHAR

Um olhar.
Apenas um olhar.
O silêncio daquele olhar.

As palavras sumiram.
Havia apenas você, eu e um olhar.

O que foi aquele olhar?
De onde veio?

Quem de nós tinha o mapa desse caminho?

De repente, não mais que de repente
O desejo se fez algo mais.
Um novo brilho.
Um novo sentido.

Um pedido: uma palavra.
Nenhuma.

Somente o olhar
O silêncio
Somente quebrado pela respiração
Pelo peito batendo acelerado

Aquele olhar veio como onda gigante
Arrastou todas as palavras.
Todo controle.
Todo limite.
Todo juízo.
Toda razão.

Aquele olhar
De repente mudou tudo.
Era apenas uma noite.
Era apenas um momento.
Era apenas desejo.
Você, apenas uma linda mulher.
Simpática, atenciosa, sincera.

De repente;
Um olhar traz algo mais.
Totalmente inexplicável,
Indefinível,
Indecifrável.
Indispensável

Um olhar.
Apenas um olhar.

14/07/2011

O POETA E A FLOR

Como humilde aprendiz, dedico estes versos a Carlos Drummond de Andrade



Vou caminhando pela rua cinzenta e lá está o poeta

ele ainda está lá, de branco, sentado, olhando a flor

a flor que rompeu o asfalto e nasceu no meio da rua,

mas, muita gente ainda não viu,

não percebeu sua cor; o tempo passou e muita gente ainda não viu a flor.



O tempo passou no relógio da torre e o poeta continua protegendo a flor.

As pétalas ainda não se abriram, o tempo da completa justiça não chegou,

As fezes são cada vez piores, os maus poemas, as alucinações e a espera...

A sua espera, poeta; a nossa espera

funde-se no mesmo impasse, na mesma náusea.



Mudaram os muros, mas continuam surdos.

As pernas que passam, não mais nos bondes, parecem não querer decifrar as palavras.

Querem apenas o sol e as coisas, mas não querem ouvir o murmúrio da flor sobre o asfalto, debaixo das cinzas, das placas, das solas dos sapatos.



O murmúrio não pode ser ouvido, o ronco dos motores, buzinas...

Ah poeta, no tempo em que o chão onde está sentado era o chão da capital do país, não havia celulares, MP3, 4, 5, infinito...

E o murmúrio já não se ouvia.



A porção diária de ração de erro tem aumentado a cada dia, poeta.

Enquanto você protege a flor no asfalto, crimes ocupam o entardecer das casas, distribuídos por mais ferozes padeiros e leiteiros do mal.

O Tóten Volúvel, volátil, veloz, cada vez mais alimenta a gula dos adoradores aduladores carnívoros e sanguinários.

Antropófagos irracionais, alimentam-se de tudo o que se lhes põe sem pensar.

O dia de trabalho é muito, não há tempo para se pensar.

Estão cada vez mais convencidos disto.



E você continua ali, poeta.

Você e a flor.



Bondes não há mais, o rio de aço do tráfego é cada vez mais caudaloso,

cada vez mais perene.

A flor, cada vez mais tem menos espaço para abrir suas pétalas,

mas, ela resiste, furando o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio,

prevalecendo.

No meio do caminho.





Inspirado em A flor de a náusea, de Carlos Drummond de Andrade.



André Valente

2/10/2008

16/01/2011

06/07/2011

SEM MEDO


 
Aqui eu penso...

O que pensam?
Condenam-me?

E me sentencio

Mas, por quê?
Tu não deves – eu me falo
Não! E por que temo?

Covarde!
Eles sabem o que te fere e usam contra ti.

Teu medo te condena
Tua única chance e derradeira defesa
é matar o monstro no seu peito.

Pega-o pela garganta e arremessa
pela janela de tua boca
e com peito aberto e firme
enfrenta teus juízes e mostre a eles
tua vitória.

28/06/2011

SENSATEZ


Era um homem sensato.
Trabalhava muito, divertia-se pouco, por uma velhice tranquila.
Hoje, descansa, tranquilamente, em um suntuoso mausoléu.

24/06/2011

HOJE, NÃO SOU


Antes eu era prosa
Hoje, sou poesia.
O encanto
O espanto
Hoje, canto tudo aquilo que só ouvia
Toda forma, hoje, não me serve mais
O desajuste, a luz
meus pensamentos
antes cinza,
hoje aquarela;
céu de estrelas,
mar revolto,
café com leite,
agulha no palheiro.
Hoje, não sei tudo que ontem sabia
minhas certezas, agora, tão incertas
a beleza da vida, a possibilidade;
não ser é poder ser muito mais.