22/10/2016

COMPRIMIDOS DUPLOS


A Drummond

Comprimidos duplos
inda não sou bem normal
para necessitar de vocês...
Devo me contentar
com uma noite agitada,
sonhos intranquilos
e um despertar cheio de pensamentos
loucos.

Meus intranquilizantes
não têm nomes sonoros
aos ouvidos laboratoriais,
medicinais;
adictos de drogas livremente traficadas,
por insuspeitos jovens bem vestidos com suas pastas pretas.

Não: vivo a vida presente,
com seus gigantes,
que são também moinhos,
que trituram nossos sonhos tão mesquinhos.
Dragões, sem um São Jorge-Ogum;
escravos de todas as cores,
com muitas dores,
por tudo isso,
quero perder meu sono.

Sanchos, diariamente, minuto a minuto,
tentam conter minha loucura.
A máquina do mundo quer me fazer parte de sua engrenagem,
quer criar um dispositivo para que eu coma,
beba,
defeque,
sem parar de trabalhar,
enquanto repete em seu auto-falante:
Não pense em crise, trabalhe!
O trabalho liberta!

Então, um dia, merecerei sentar-me à mesa
com as pessoas na sala de jantar
para finalmente, ocupar-me em morrer
após fumar um charuto,
tomar um wisky,
confortavelmente,
mediocremente,
na poltrona de um apartamento,
com a boca escancarada,
cheia de dentes,
divagando sobre a vaga política,
sobre a distante e indesejada revolução,
sobre a ordem e o progresso,
sobre aquele inaceitável 7 a 1.

Anestesistas de plantão
oferecem menos dor,
menos sofrimentos,
a quietude,
a paz plena,
a pele liberta de todo arrepio,
a mente em silêncio,
e um tipo de caos aprovado
por uma assinatura,
um número de registro profissional
com a autorização
da agência de vigilância de nossa insanidade.

Comprimidos duplos
prometem a calma
que não há em Cuba,
na Venezuela,
na Coreia do Norte,
mas só no país que nos USA
e que em troca
nos dará
lindos espelhos,
nas palmas das mãos,
para distrair nossos olhos,
o fruto proibido para alguns adões e tantas evas,
que esperam pela intervenção divina.
Fones
para distrair nossos ouvidos,
câmeras
para fotografar nossa virtual felicidade,
nosso mundo encantado.
Rede para compartilhar nossos mitos,
nossa sabedoria ao toque de um link.

Um dia, talvez,
comprimidos duplos e coloridos,
pequenas cápsulas de riso largo,
me consolarão;
não saberei quanta fome é preciso
para que eu possa abrir a felicidade,
para que eu apenas faça,
para que eu ame muito tudo isso.
Não saberei quantos desdentados são necessários,
para que eu continue sorrindo à camera frontal,
de meu poder de compra, 
com meus belos dentes,
ou com as dentaduras duplas
que um dia,
eu merecerei,
mastigando, então,
indiferentemente,
e saborosamente,
a carne podre da vida.

Mas, por agora,
comprimidos duplos,
não vão comprimir
meus pensamentos,
meus sonhos,
minha vida.


André Valente

São Paulo, 22 de outubro de 2016

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