01/06/2012

À MULHER QUE RIA

Uma gargalhada soava do ar da avenida.
Constante, ritmada, aguda.
Uma gargalhada que parecia ensaiada.
Enquanto eu caminhava pensando em ser feliz
vi, à beira da avenida, uma moradora das ruas da cidade ria.

Passavam inúmeras felicidades caminhando,
nos automóveis, nas motocicletas,
no trem no subsolo,
atravessando a passarela, como eu,
felicidades iam e vinham.
Ela, com seu lenço preto na cabeça, seu casaco surrado
e seu diskman anacrônico, olhava, apontava e ria.

Ela apontava como se visse
que diante de tanta civilização
não se ria, nem se sorria.
Mas ela ria.

Um tolo que ela apontava pensava que felicidade não existe.
Um intelectual olhava desconfiado, pensando que ela não podia ser feliz,
não no sentido lato.
Ela, indiferente, ria de todos.
Com sua saia presa na bota cumprida.
Ela ria da moça bem vestida
Ela ria.
 
Um empresário em seu carro do ano não se sentia feliz
Os lucros estavam baixos.
O desempregado parecia inconformado
Como ela poderia rir?
Com dois dentes a menos... ela ria.
Expondo o que os outros guardavam.
 
Um pesquisador a olhava, tentando descobrir.
O candidato passou e não viu que poder ela tinha
Que a fazia rir.
Um padre achou que ela devia sofrer.
Um pastor, que estava possuída.
E ela ria de todos
Ali, naquele lugar chamado Luz,
na cidade que não para,
ela continuou andando e rindo.

Este texto nasceu de um fato real, ocorrido comigo, dia 30/05/2012, próximo da estação da Luz, em São Paulo.

Um comentário:

Melina disse...

lindo,como vou no centro quase todo final de semana, pq vendo bijus e óculos,passo pelo centro direto, e é tanta gente junta e distante ao mesmo tempo q às vezes eu também tenho vontade de dar um grito, uma gargalhada, pra ver se mudo aquelas facetas...