A Manuel Bandeira
Quando surgiu todos o admiraram: Vejam, um cacto nasceu! Um cacto, verde. Alguns espinhos.
Em meio à aridez reinante não foi difícil, o cacto cresceu, mas dúvidas surgiram: E os espinhos?
Machucam? São perigosos? Para quê esses espinhos?
Alguns já diziam: é belo, mas áspero. Causava espanto. Não era uma rosa perfumada, margarida alegre, flor do campo colorida. Nascera na cidade. Em meio ao cinza, ao concreto. Era, no entanto, verde, abstrato, impreciso, intratável. Não sabiam como cuidar.
Crescia o cacto. Seus espinhos, agora, causavam preocupação. Seu tamanho: logo chegará ao teto. O que fazer? Já não cabia em sua casa.
Foi para uma igreja, lá caberia, lá decoraria, lá se adaptaria. No começo, o cacto era admirado: vejam, que novidade! Que interessante! Que belo!
Mas, já havia quem dissesse: mas, áspero demais. Não fica bem para a religião tanta aspereza. É preciso delicadeza, perfume, cor. É preciso que sirva para adornar. Tornar agradável o ambiente. Harmonizar. Esse cacto é muito agressivo. De que vale um cacto? Os espinhos não inspiram a beleza divinal. É preciso que seja rosa, mas sem espinhos. Ou flor do campo, ou lírios da paz. Espinhos não. Não há nada a se ensinar sobre cactos. Não há nada a aprender com cactos.
Não conseguiam perceber o muito que podiam aprender sobre o armazenamento de água para as épocas secas, sobre a resistência à aridez, sobre a contradição dos espinhos e da flor. E por incomodar, por exigir pensamento onde apenas cabia devoção, o cacto foi deixado em um canto escuro por uns e logo encheu-se de poeira.
Logo, o cacto cresceu. Os espinhos tornaram-se insuportáveis para a paz religiosa. Intratáveis. Foi colocado no corredor, depois nos degraus da escada, depois na rua.
As pessoas passavam e se admiravam: um cacto, que belo. Outros olhavam de lado dizendo: que áspero. Fora da escuridão do templo, a luz do sol, o calor da rua fez crescer o cacto. Crescia a cada dia. Espinho por espinho. A cada novo broto que surgia, alguém reparava: está crescendo, o cacto. Outros se assustavam: cuidado com os espinhos, são venenosos. Outros simplesmente não sabiam o que era aquilo, nunca tinham visto um na TV, em revistas, em jornais ou na Internet. Nenhum artista nunca havia exibido um cacto em sua mansão. A escola, cada vez mais atenta à realidade nacional não ensinava sobre cactos, eles não faziam parte do currículo, pois só havia cactos no ambiente hostil do sertão.
Os espinhos do cacto foram crescendo e ocupando a rua em meio aos burburinhos. As pessoas esquivavam-se com medo de se machucarem. Outras com raiva diziam: por que não cortam esses espinhos? Que coisa horrível. O cacto. Já não passava despercebido, então, começou a gerar polêmica. É possível mantermos esse cacto? Como vamos cuidar dele? Esses espinhos não vão machucar alguém? Não são perigosos?
Fazia mais de trinta anos que o cacto havia nascido, no entanto, as dúvidas eram as mesmas.
Ainda não haviam aprendido a cuidar dos cactos. Por isso, muitos já foram sufocados. Alguns por brotarem flores vermelhas, pois essa cor inspira revolta, agressividade. Os cactos vermelhos são perigosos para a beleza das flores, para o verde da grama, para a placidez da vida, era preciso extinguí-los e deixar crescer os de flores azuis e amarelas.
Os cactos selvagens estão quase extintos. Alguns foram aculturados, hoje, seus espinhos não incomodam tanto. Outros simplesmente tiveram seus espinhos cortados, não se parecem mais com cactos. Sendo assim, não incomodam, são exóticos, são belos e não ásperos. Discute-se onde colocar os poucos cactos que precisam de um espaço para continuarem a ser cactos. Porém, não se chega a uma resolução.
Os mandacarus são os mais rejeitados. Não os querem nas cidades, eles deveriam ficar no sertão.
Enquanto praguejavam, o cacto crescia, cada vez mais espinhoso, cada vez mais incômodo, cada vez mais assustador.
Tentaram cortar-lhe os espinhos, queriam apenas as flores, pois essas são lindas, macias, coloridas, cheirosas. Mas não queriam os espinhos. E o cacto continuou crescendo misturado ao cinza urbano. Até que um dia o cacto caiu, no meio da rua. Seus espinhos atravessados na avenida eram vistos por todos, até por quem nunca olhou para o cacto, até por quem nunca chegou perto dos espinhos. Foi um grande alvoroço: o cacto caiu. E agora?
Então, nesse momento, ainda que tarde, a cidade viu que o cacto era belo, áspero e definitivamente, intratável.
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