10/05/2016

TANTAS FACES


Quando nasci
nenhum anjo disse nada,
que me lembre.
Por isso não aceito que me digam
o que pode, ou o que não pode ser.
Por isso sou torto e rebelde,
sou torto sem consentimento.

Eu espio os homens
que correm atrás das mulheres,
como animais em luta pelas fêmeas.
Saem das casas e roncam seus motores
para impressioná-las.
E elas no seu fingir ser ou não ser,
deixam os homens pensarem que as conquistaram.

O lotação passa cheio
O ônibus passa cheio
O trem passa cheio
O metrô passa cheio
As avenidas estão cheias
Pra que tanta gente, meu Deus,
perguntam meus olhos,
mas ninguém responde nada,
estão todos surdos, cegos e mudos.
Eu também não respondo nada.

Os homens dentro dos fones de ouvido,
as mulheres dentro dos fones de ouvido,
os jovens dentro dos fones de ouvido...
Todos juntos, todo dia,
fazem tudo igual,
se sacodem às seis horas da manhã,
quase não conversam...
Todos, dentro dos fones de ouvido,
têm mais de mil amigos nas redes sociais,
mas nas ruas não se falam.

Meu Deus, por que nos abandonaste,
se sabias de nossas fraquezas,
se sabias que nos perderíamos de ti,
se sabias que nos perderíamos de nós?
Por que deixaste que falassem e fizessem tanto em teu nome?
Por que não te encontro em casa?
Tantas casas na cidade?
Por que não te decides onde moras?
Por que não decides teu nome?
Um nome, o que é um nome?
Se outro nome tivesse a rosa,
em vez de rosa,
seria por isso,
menos perfumosa?

Mundo, mundo, vasto mundo...
Não há nada de profundo a se dizer,
não há alguma solução.
Mundo, mundo, vasto mundo,
Não me chamo Raimundo,
não sou uma solução,
sou uma contradição,
não sei o tamanho do meu coração.

Eu não sei se devia ou não dizer.
Não sei nada sobre a lua,
Nem sobre conhaque,
Nem sobre Deus,
ou o diabo,
o mundo,
a rima,
o sim,
o não.
Apenas peço perdão,
Por ser assim,

tão de repente.

Nenhum comentário: