Leio em uma crônica de Affonso Romano de Sant’Anna que a partir dos trinta anos começamos a perder. Perdemos células da pele, perdemos neurônios, perdemos a visão, a audição, o paladar, o olfato, isso é o envelhecimento, mas a caminho dos meus trinta e três anos me recuso a envelhecer, me recuso a pensar nas perdas quando posso pensar no ganho. A crônica me faz pensar: o que se ganha com o tempo?
Começo, então, a fazer o balanço de minha vida e noto que um grande ganho é a percepção de que aos trinta e dois, por mais que se tenha vivido, viveu-se pouco. O que se tem para viver é muito mais. Com o passar dos anos, a vida se torna elástica, é possível perceber o quanto deixamos de ver, de ouvir, de sentir, de viver. Mas a vida é generosa – desde que aceitemos sua generosidade – e nos oferece sempre novas chances e com o tempo, as chances parecem tão diferentes de antes. Cabe a nós aproveitarmos.
Com o tempo, ganhamos a liberdade de ser quem somos, pois já não há mais por que ficarmos tão preocupados com o que vão pensar de nós. Nossos gostos, nossos medos, nossas manias, nossos vícios passam a ser cada vez mais nossos, para fazermos deles o que bem entendermos. Se assim quisermos.
Com o tempo, ganhamos a coragem de mudar de opinião de uma hora para outra sem o medo de parecermos contraditórios e de expressar nossas opiniões e arcarmos com as conseqüências.
O tempo nos trás a certeza, cada vez mais certa de que o que se é vale muito mais do que o que se tem.
O tempo nos permite revivermos a juventude com um vigor muito mais puro, pois é o vigor da alegria, da liberdade, da tranqüilidade, do equilíbrio de vivermos enquanto valer a pena.
O tempo nos mostra que viver vale mais a pena do que morrermos gradativamente pensando nas perdas ou distraídos pelo medo de encararmos a vida.
Com o tempo, ganhamos um grande amigo: O tempo.
Um comentário:
Pra variar,muito lindo!escreve muito bem
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