14/07/2011

O POETA E A FLOR

Como humilde aprendiz, dedico estes versos a Carlos Drummond de Andrade



Vou caminhando pela rua cinzenta e lá está o poeta

ele ainda está lá, de branco, sentado, olhando a flor

a flor que rompeu o asfalto e nasceu no meio da rua,

mas, muita gente ainda não viu,

não percebeu sua cor; o tempo passou e muita gente ainda não viu a flor.



O tempo passou no relógio da torre e o poeta continua protegendo a flor.

As pétalas ainda não se abriram, o tempo da completa justiça não chegou,

As fezes são cada vez piores, os maus poemas, as alucinações e a espera...

A sua espera, poeta; a nossa espera

funde-se no mesmo impasse, na mesma náusea.



Mudaram os muros, mas continuam surdos.

As pernas que passam, não mais nos bondes, parecem não querer decifrar as palavras.

Querem apenas o sol e as coisas, mas não querem ouvir o murmúrio da flor sobre o asfalto, debaixo das cinzas, das placas, das solas dos sapatos.



O murmúrio não pode ser ouvido, o ronco dos motores, buzinas...

Ah poeta, no tempo em que o chão onde está sentado era o chão da capital do país, não havia celulares, MP3, 4, 5, infinito...

E o murmúrio já não se ouvia.



A porção diária de ração de erro tem aumentado a cada dia, poeta.

Enquanto você protege a flor no asfalto, crimes ocupam o entardecer das casas, distribuídos por mais ferozes padeiros e leiteiros do mal.

O Tóten Volúvel, volátil, veloz, cada vez mais alimenta a gula dos adoradores aduladores carnívoros e sanguinários.

Antropófagos irracionais, alimentam-se de tudo o que se lhes põe sem pensar.

O dia de trabalho é muito, não há tempo para se pensar.

Estão cada vez mais convencidos disto.



E você continua ali, poeta.

Você e a flor.



Bondes não há mais, o rio de aço do tráfego é cada vez mais caudaloso,

cada vez mais perene.

A flor, cada vez mais tem menos espaço para abrir suas pétalas,

mas, ela resiste, furando o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio,

prevalecendo.

No meio do caminho.





Inspirado em A flor de a náusea, de Carlos Drummond de Andrade.



André Valente

2/10/2008

16/01/2011

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