Como humilde aprendiz, dedico estes versos a Carlos Drummond de Andrade
Vou caminhando pela rua cinzenta e lá está o poeta
ele ainda está lá, de branco, sentado, olhando a flor
a flor que rompeu o asfalto e nasceu no meio da rua,
mas, muita gente ainda não viu,
não percebeu sua cor; o tempo passou e muita gente ainda não viu a flor.
O tempo passou no relógio da torre e o poeta continua protegendo a flor.
As pétalas ainda não se abriram, o tempo da completa justiça não chegou,
As fezes são cada vez piores, os maus poemas, as alucinações e a espera...
A sua espera, poeta; a nossa espera
funde-se no mesmo impasse, na mesma náusea.
Mudaram os muros, mas continuam surdos.
As pernas que passam, não mais nos bondes, parecem não querer decifrar as palavras.
Querem apenas o sol e as coisas, mas não querem ouvir o murmúrio da flor sobre o asfalto, debaixo das cinzas, das placas, das solas dos sapatos.
O murmúrio não pode ser ouvido, o ronco dos motores, buzinas...
Ah poeta, no tempo em que o chão onde está sentado era o chão da capital do país, não havia celulares, MP3, 4, 5, infinito...
E o murmúrio já não se ouvia.
A porção diária de ração de erro tem aumentado a cada dia, poeta.
Enquanto você protege a flor no asfalto, crimes ocupam o entardecer das casas, distribuídos por mais ferozes padeiros e leiteiros do mal.
O Tóten Volúvel, volátil, veloz, cada vez mais alimenta a gula dos adoradores aduladores carnívoros e sanguinários.
Antropófagos irracionais, alimentam-se de tudo o que se lhes põe sem pensar.
O dia de trabalho é muito, não há tempo para se pensar.
Estão cada vez mais convencidos disto.
E você continua ali, poeta.
Você e a flor.
Bondes não há mais, o rio de aço do tráfego é cada vez mais caudaloso,
cada vez mais perene.
A flor, cada vez mais tem menos espaço para abrir suas pétalas,
mas, ela resiste, furando o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio,
prevalecendo.
No meio do caminho.
Inspirado em A flor de a náusea, de Carlos Drummond de Andrade.
André Valente
2/10/2008
16/01/2011
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