Homenagem a TODOS os pais, especialmente ao meu que guiou minhas mãos para me ensinar a escrever as primeiras letras de minha história.
Meu pai pegava ônibus, ia para o trabalho.
Era noite.
Dava dó quando era frio,
e chuviscava.
Meu pai punha seu casaco com botão de marinheiro...
Tinha uma âncora no botão...
Sua boina italiana...
Seu cachecol...
E saia, ensinando-me a ser valente para enfrentar o
frio...
Meu pai pegava ônibus, ia para o trabalho
e só chegava no dia seguinte.
Durante o dia, meu irmão pequeno brigava comigo.
Os mais velhos trabalhavam
Eu, entre bonecos,
criava histórias de cowboys,
de vampiros que derretiam,
de prefeitos e governadores,
de cidades, de corridas,
histórias inacabáveis...
na floresta do jardim de minha casa,
falando pra dar voz aos meus bonecos...
Minha mãe achava que eu falava sozinho...
Na rua, corria, gritava
é gol, não é, foi, não foi,
três pra trás, taco no chão,
Vitória!
Minha avó ficava no muro a olhar.
Minha mãe às vezes dizia:
- Psiu... não grite tanto, não vá acordar seu pai!
A vizinha também dizia que eu gritava demais.
O outro reclamava dos palavrões...
No entardecer alaranjado visto da porta da cozinha
minha mãe chamava para o café com leite.
Às vezes, minha avó fazia torrada...
como ninguém nunca mais as fez.
Ia pra rua, minha mãe chamava
às vezes demorávamos, meu irmão e eu...
um dia, minha mãe trancou tudo...
deitamos na rampa que meu pai fizera para minha avó
que não podia subir escadas...
Minha mãe ficou com dó...
Nós entramos...
Eu ia dormir...
E às vezes acordava empurrado por meu irmão...
Sonâmbulo...
Que me empurrava...
O mesmo que me socorreu
Quando levantei dormindo
e bati a cabeça na quina da cama,
tudo por querer mexer no dinheiro
que sonhei ver no armário dele...
Minha casa era um país.
Cada parte, uma cidade.
Havia até um ônibus
Um volante de perua...
Um cabo de vassoura...
Fincados no chão...
Outro... o câmbio...
O motorista era meu irmão...
Não podia descer antes da hora...
Como viajávamos...
Meu pai era vigia noturno...
Minha mãe, dona de casa e de brechó...
Meus irmãos trabalhavam...
O pequeno brincava e brigava comigo...
Eu eu não sabia que minha história
era mais bonita que a história do poeta
que era mais bonita que a história de Robinson Crusoé.
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