28/09/2012

O CANTO DO POVO


Tem certos dias em que eu penso em minha gente
E sinto assim todo meu peito se apertar.”
Vinícius de Moraes e Chico Buarque

O canto do povo é como o bálsamo que aplaca as feridas,
ou como a faca que as rasga ainda mais,
expondo-as para escarmento dos olhares indiferentes.
As feridas duramente e friamente causadas
na carne e no espírito, pelos espinhos,
do desinteresse,
do descaso,
do desprezo.

O canto do povo é cheio de contrastes,
entre o que se canta e o que se é.
O povo que canta a alegria de viver,
a bola, a cama e o prazer,
mas vive sem sorrir,
mal dorme,
deve contentar-se com um prazer ínfimo
e com a bola na rede e o grito de gol,
o casamento, os filhos, o final feliz da novela,
ou a receita do programa matinal,
que ensina a cozinhar a nação,
sem comida na panela.

O canto do povo é cheio de culpa.
Mas a culpa não cria,
não enche barriga,
não paga conta.

O canto do povo tem que defender o grito de protesto,
questionar o contexto e não aceitar o pretexto.

O canto do povo entende seu falar torto,
seu odor incômodo, no vagão do trem,
seu erro que parece constante.
O povo está sempre errado,
porque não consegue cumprir lei,
que é do mais forte.

O canto do povo não amaldiçoa a morte que o leva,
em dia de balas achadas em filhos perdidos;
não maldiz a água que alaga,
o fogo que consome,
a febre que o derruba no corredor do hospital.
Porque a morte, a água, o fogo e a febre são pagas,
pelos donos do dinheiro pelos serviços prestados.

O povo é essa gente que não sabe que é cantada,
que não sabe que é pensada em discussões acadêmicas,
que é analisado pelo brilhantismo intelectual,
que não lê as teses escritas em linguagem que não entende.

O povo é essa gente que vive como gado,
que anda a pé
e apertado,
come pouco,
dorme mal,
mora longe,
morre fácil,
sofre muito.

O canto do povo revela o que há de podre
no reino encantado do mais forte.
Destoa do coro dos contentes de barriga cheia,
escola boa,
garagem ocupada,
morada quente,
segurança plena
e saúde perfeita.
O canto do povo nada sabe do casamento britânico,
da biografia do jovem astro pop,
dos arrastões nos restaurantes da elite,
do “terror” nos condomínios de luxo.

O canto do povo, sabe, apenas, quem é o povo.

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